Análise I: Ganadarias 2019 por Miguel Ortega Claudio

Crónica

Só com um Bravo na arena, é possível o “Milagre da Arte”

 

Desde a tarde de Redondo, em que a temporada fechou portas até hoje, primeiro domingo de Dezembro dia que escrevo, passou sensivelmente um mês que aproveitei para reflectir e para combater de alguma forma a ressaca, que sempre existe com o fim de uma temporada de toiros.

 

Faço o “balanço” da temporada de 2019 que chegou ao fim e está cheia de momentos difíceis de esquecer. Foi uma das temporadas mais exuberantes dos últimos anos, com grandes triunfos, praças cheias, toiros mais bravos que nunca e regra geral com forcados a superarem com galhardia a bravura dos bravos. Apesar da tauromaquia receber ataques constantes, foi demonstrado que as corridas de toiros e a Festa estão mais vivas e de boa saúde.

 

Quando a solidão das praças e o silêncio dos Invernos desaba no campo bravo as tarefas das ganadarias continuam e é por aqui que começo esta minha reflexão da temporada.

 

O milagre da bravura!

 

Toiro bravo, duas palavras simples, incluem uma profundidade ancestral e mágica, única no mundo. A bravura, nobreza, casta e beleza fizeram sobreviver este animal único ao longo dos tempos e se o ganaderos conseguem por vezes o milagre da bravura, só com um bravo numa arena é possível o milagre da arte.

Numa corrida de toiros como o próprio nome diz, o elemento fundamental é o toiro, o toiro bravo. Sem ele, as corridas não poderia existir. Portanto, antes de tudo, o toiro deve ser bravo, uma palavra simples, mas que envolve todo um contexto em torno do qual gira a Festa.

 

A temporada que agora terminou quanto a mim foi aquela em que mais toiros bravos vi, foi aquela em que os grandes triunfadores da mesma foram os ganaderos. Foi aquela em que mais próximo estiveram esses românticos de alcançar o sonho “del toro de ojos verdes” de Villalon. Parabéns!

 

Nomes como Palha, Teixeira, Castro, Silva, Murteira Grave, Passanha, Pinto Barreiros, Luis Rocha, Canas, São Torcato, Brito Paes, Cunhal Patricio, David Ribeiro Telles, Nuncio, Vinhas, Vale de Sorraia, Monte Cadema, Cochicho, marcaram com camadas completas, curros, ou toiros soltos de alguma forma 2019 enquanto a toiros.

 

Não irei escrever de todas as corrida e toiros que vi ao longo deste ano, mas irei destacar umas quantas corridas e toiros soltos que me marcaram de alguma maneira durante a temporada.

 

Ganadaria Palha identifica-se como um tipo de toiro com casta, força, agressividade, ferocidade, que não facilita a vida aos toureiros mas que sobretudo proporciona um grande espectáculo. Este ano voltavam os Palhas à Moita e foi pela Porta Grande, corrida encastada, brava, com vários toiros de nota, caso do segundo, terceiro e sexto. Mas foi um “Camararito” em Alcochete quanto a mim o toiro da temporada do Monte da Adema em Portugal. Bravo, nobre, com classe, repetidor, alegre. Em Arles os pupilos de João Folque lidaram uma corrida encastada e brava que proporcionou o triunfo a Pepe Moral, ganadero e Maioral deram aplaudida volta ao coliseu Francês.

 

O toiro bravo da ganadaria Teixeira é aquele que é pronto na arrancada, humilha e têm mobilidade encastada. Portanto, as três características principais que sobressaem no toiro bravo são a humilhação, o galope e carregar durante a lide e foi o que se viu em quase todos os toiros lidados desta ganadaria em Portugal. Quanto a mim a ganadaria triunfadora por terras lusas desta temporada. Penso que vi quase todos se não todos os toiros lidados do Monte do Pedrogão, toiros de bonita estampa e na sua grande maioria bravos. Destaco o toiro que venceu o concurso de Salvaterra, outro lidado também no concurso de Évora, toiro esse de uma bravura seca, difícil de se ter por diante; Um par deles em Santarém, outros tantos em Lisboa; Em Moura, três toiros de nota com um deles a proporcionar um triunfo memorável a Moura Jr.; Mais três em Évora; E a corrida estrela da temporada quanto a mim… A mais completa que vi por bonita e brava foi em Cuba. Que corridão de toiros! Todos tiveram mobilidade, acometidas francas, humilharam, tiveram casta numa palavra, foram bravos!

 

Murteira Grave, é sinónimo de bravura, fijeza, capacidade para humilhar, recorrido e mobilidade com transmissão. A ganadaria cumpria este ano bodas de diamante, e novamente marcou muitos pontos em Portugal mas foi em Espanha que os Murteiras voltaram a fazer fulgor. Por cá um par de novilhos em Mourão, com destaque para o lidado por Octávio Chacon que com o morro fazia sulcos na arena; O toiro que venceu o concurso de Évora; Mais uns quantos em Lisboa, com destaque para o primeiro e quarto; Dois em Abiul; O “Meloso” de Elvas lidado por Marcos Bastinhas toiro de bandeira; E um dos momentos da temporada para a ganadaria e para os presentes foi o São Pedro em Évora… Praça esgotada, toiros de nota alta, com a cereja em cima do topo do bolo, o “Taleguilla”, lidado por Moura Jr. Quanto a mim foi o momento mais emotivo da temporada 2019. O milagre da bravura, com um bravo na arena, fez possível o milagre da arte nessa tarde quente de Verão… Espanha terra de Murteiras! Saragoça chega e arrebata o prémio de Bravura da Corrida Concurso; Azpeitia, toiro mais bravo da Feira; Burgo de Osma Maioral pela Puerta Grande com os três matadores; E o “Violino”, que fazia o regresso a Madrid desta ganadaria, toiro ovacionado de saída e aplaudido no arraste.

 

Regularidade na bravura foram as dominantes dos Passanha lidados esta temporada. Nobreza, tranco, acometividade com classe. É a ganadaria que mais lida inscrita na associação Portuguesa de criadores de toiros de lide. Camada novamente larga com muitos curros lidados tanto em Portugal como em Espanha. Por cá, Évora e Passanha são sinónimos de triunfo! Toiro importante lidado no Concurso de Ganadarias; A corrida lidada em Julho é homogénea, destacando a classe do quarto e quinto e a casta do sexto; Volta a ganadaria a Évora com três toiros em Outubro e o terceiro é de bandeira, bravo… O sexto é um super casta, toiro pouco visto neste encaste mas importante; Corrida brava na Azambuja e na Foz do Sizandro; Em Lisboa há dois toiros de boa nota e em Vila Franca outros tantos. Por terras espanholas Montoro, Ciudad Real, San Sebastian de los Reyes, foram praças onde os toiros da Pina triunfaram forte e proporcionam o corte de orelhas aos rejoneadores.

 

Luís Rocha em Junho lida uma corrida de bandeira na Mestre Bastista em Reguengos, cinco toiros de nota com grande destaque para quarto e quinto. Bravos, repetidores, a acometerem humilhados aos cavalos e a investirem por baixo nos capotes.

 

São Torcato, lidou em Montemor porventura a melhor corrida da sua camada, toiros leves de peso mas encastados, mobilidade e todos a virem a mais, primeiro e quinto, dois toiros de destaque.

 

Vale de Sorraia, em Almeirim lidou uma corrida séria, cinquenha, em que a nobreza foi a palavra de ordem. Toiros com muita mobilidade, voluntariosos, com destaque para o segundo e um encastado quinto. Em Coruche na encerrona de João Ribeiro Telles um bravo cardeno de Sorraia proporcionou a um dos seus amos um grande triunfo.

A ganadaria António Silva também ela a comemorar 75 anos, lida em Lisboa uma grande corrida de toiros. Três toiros encastados e um de bandeira um negro chorrreado, engatilhado de cara, lidado em terceiro lugar.

A ganadaria Castro voltou a lidar vários toiros de nota, os dos concursos de Salvaterra, Évora e Alcochete. Em Moura lida um toiro de bandeira numa corrida condicionada de alguma forma por ter alguns toiros com deficiências de locomoção.

António Raul Brito Paes, debutava e ganhava antiguidade em Lisboa e lidou a corrida da temporada na capital Portuguesa, corrida pesada, encastada, brava e nobre.

 

Não queria deixar de destacar ainda quatro toiros, um de Cunhal Patrício, lidado em sexto lugar em Santarém, bravo, com classe, a humilhar e fazer o “avião” nos capotes. O de Pinto Barreiros lidado em Vila Franca e vencedor da corrida concurso, teve raça, casta, mobilidade, nobreza e bravura. Outro toiro de nota foi um da ganadaria Cochicho lidado em Coruche no festival de Nossa Senhora do Castelo. A ganadaria Ribeiro Telles lida quanto a mim o melhor toiro lidado a pé em Portugal foi na Moita do Ribatejo calhou em sorte a Gines Marin e foi bravo, encastado, humilhava com o morro no chão.

 

O que acontece na praça não passa de um reflexo fiel do que aconteceu antes no campo, na selecção do bravo. Por tudo isso os ganaderos devem ser admirados, porque mais do que trabalho, um ganadero sonha com bravura, sonha com nos proporcionar grandes tardes e noites de toiros a toureiros e ao público. Parabéns novamente!

 

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