Afinal quem são os inimigos da Tauromaquia?

Crónica

Passamos muito do nosso tempo em conversas entre aficionados a pensar sobre o futuro da festa dos touros em Portugal. Em que nessas conversas existem sempre inúmeros pretextos para florear ou incendiar a conversa entre amigos, mas invariavelmente culpamos o suposto socialmente correto, na verdade mais virtual do que real, dos animalistas e dos seus fundamentalismos, da economia e da grave crise que atravessámos, e que parece que passou (ou então está bem disfarçada), e pela qualidade dos cartéis, ou pela falta dela.

Mas entre tantos pontos-chave de discussões tão acesas, é importante que se perceba que os animalistas são aqueles que menos importância têm no que respeita aos problemas da festa, e é quase lisonjeador para tais movimentos que lhes seja dada a importância de que eles tão altivamente e muito solitariamente se auto vangloriam.

Se não vejamos, nos últimos anos foram diversas as investidas dos grupos animalistas no Parlamento Português, desde as mais variadas da tentativa de restringir o acesso aos espetáculos tauromáquicos de menores como espectadores ou como artistas, de tentarem por diversas vezes, e como estão a tentar novamente nas propostas para o atual orçamento de estado, de agravar o IVA dos bilhetes, e de impedir a equivalência dos artistas tauromáquicos aos mesmos direitos fiscais que os restantes artistas em Portugal, de impedir a transmissão de corridas televisionadas na RTP, e de um modo geral de criarem as maiores barreiras possíveis para denegrir e diminuir a capacidade da Tauromaquia Portuguesa. E que conseguiram eles durante todos estes anos?

Derrotas, apenas derrotas atrás de derrotas! O trabalho da PROTOIRO, na defesa da tauromaquia ao nível político tem sido hábil e bem-sucedido, e os deputados corresponderam em todas as ocasiões e souberam defender a vontade da cultura Portuguesa chumbando maioritariamente e liminarmente todos os recentes ataques. Faltando apenas a coragem a estes poucos políticos animalistas de defenderem no Parlamento o fim da tauromaquia, de uma forma honesta e corajosa, e colocarem um ponto final nas suas pretensões caso a derrota seja mais um dos destinos habituais. Mas não o fazem, exatamente por que sabem que o tal novo paradigma de que falam é uma utopia ideológica virtual, encerrada nos bastidores de meia centena de monitores de computadores onde se criam identidades virtuais que alvitram a toda a comunidade nas redes sociais que são a maioria da população Portuguesa, quando na realidade são sempre os mesmos, e sempre em pequeno número. Veja-se o exemplo das manifestações anti-taurinas no Campo Pequeno. Se são assim tantos, onde estão? O que fazem nas quintas-feiras à noite para não defenderem presencialmente aquilo que tanto espalham de uma forma exponencial pela realidade virtual?

Estes inimigos da festa têm a mesma dimensão que sempre tiveram, ou seja, diminuta. Mas encontraram nas redes sociais e num político com assento parlamentar, a sua forma de difundir realidades alternativas e mentiras dissimuladas, numa política de guerrilha e de trincheiras, onde sabendo que de “caras” não conseguem atacar a tauromaquia, adotam a sua vertente cobarde e politicamente questionável.

Mas, com tantos ataques, com tanta pressão na comunicação social e nas redes sociais, têm sido os animalistas um verdadeiro inimigo da festa?  Claro que sim, mas não a colocam em risco. Vieram sem dúvida reforçar a Festa, mobilizando os seus intervenientes e aficionados para uma consciência de militância ativa (veja-se a recente vitória nacional de um projeto de Valorização do Património Cultural Taurino no Orçamento Participativo lançado pelo Governo), e à criação de mecanismos de proteção no panorama político, defendendo os seus ideais perante os tais ataques dissimulados e falsos.

Mas o sucesso e a continuação da festa não dependem apenas da defesa perante tais inimigos, a festa precisa de se defender de dentro e evitar que os danos venham da própria tauromaquia.

Terminámos uma época de inúmeras praças cheias e esgotados. Terminámos uma época onde os aficionados responderam em massa à qualidade, e onde deixaram clara a diferença de resposta à falta da mesma. Onde as touradas continuaram a marcar presença de Sul a Norte do País, onde os ativistas animalistas se viram e desejaram por encontrarem as tais verdades alternativas no meio das reduzidas corridas com pouco público. Onde os animalistas se regozijaram com uma guerra interna na RTP, onde um diretor de programas sobrepõe a vontade de mais de 700.000 espectadores ao seu egoísmo e ultrapassa claramente os direitos e deveres do seu cargo. Papel esse que foi saudado efusivamente por animalistas, mas que rapidamente lhes provocou rouquidão a cada análise do share televisivo de cada corrida televisionada ou nas declarações do Presidente da televisão estatal, que defendeu a continuidade das Touradas na RTP e a defesa da liberdade e diversidade do serviço público de televisão.

Depois de anos de troika, de crise, de diminuição do poder de compra generalizado, a tauromaquia surge reforçada e valorizada depois da presente época, e ergue-se cada vez mais a necessidade de optar pela qualidade em detrimento da quantidade. Os tais animalistas também adoram ver números, sejam eles de espetáculos e de espectadores, mas o que não percebem é que uma prática cultural não se mantém pelo número de espetáculos nem pelo número geral de espectadores.

Mantém-se sim pelas ilusões que cria, pelos sonhos que concretiza, pela espectularidade de um espetáculo único que atinge o seu apogeu com praças cheias em resposta ao tal cartel ideal, o tal cartel de sonho, o que movimenta massas. As massas de mais de meio milhão de Portugueses que tanto dilui a importância das poucas dezenas de anti-taurinos, que se não fossem pelos seus megafones passariam desapercebidos, tal a sua insignificância.

Os danos à tauromaquia são na realidade causados por aqueles que realmente tentam toldar os ideais dos aficionados com cartéis ou com prestações artísticas que não as sonhadas por quem compra um bilhete para uma tarde de calor tórrido em Agosto, ou para um dia de trabalho com poucas horas de sono após uma noturna no Campo Pequeno. Á festa exige-se seriedade pelo aficionado, exige-se que o respeito seja mútuo e que a ilusão seja criada. A isso respondem os aficionados em massa, tal como o fizeram este ano com inúmeras praças cheias ou esgotadas.

A Festa para se manter da mesma forma que se tem mantido ao longo dos últimos séculos, precisa de qualidade em vez da quantidade, precisa de seriedade. Não precisa de agentes nocivos no seu interior, sejam eles empresários, comunicação social ou artistas. A seriedade parte de todos, a qualidade impõe-se a quem monta os cartéis, e com isso de nada valerão as realidades alternativas no parlamento, ou as mentiras dissimuladas na comunicação social e nas redes sociais, pois a festa manter-se-á forte e para durar, bastando para tal conservar e fomentar a sua ética e os seus valores.

 

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