A ternura dos 40

Crónica

07.06.2018 – Praça de Touros do Campo Pequeno, Lisboa

3.ª Corrida de Abono

Cavaleiros:

João Moura

João Moura Júnior

Miguel Moura

Novilheiro:

João Augusto Moura

Grupos de Forcados Amadores de Portalegre, Arronches e Monforte

Ganadarias:

Herdeiros de Manuel Coimbra

Francisco Romão Tenório

Torre de Onofre (novilho para a lide a pé)

Direção: Pedro Reinhardt.

Três quartos de casa, em noite de muita chuva e vento, de seleção nacional de futebol na euforia pré-mundial, foi a lotação que preencheu a praça de touros Lisboeta para prestar homenagem à maior figura do Toureio a Cavalo nascida em Portugal.

Quarenta anos, quatro décadas a transbordar Toureio, Escola e Valores que hoje, nesta noite chuvosa, se fizeram ver, não apenas pelo Mestre, mas pelos seus discípulos, pela sua herança mais preciosa que tão bem soube beber daquela fonte, que outros tantos beberam e continuarão a beber.

Não é noite para pormenorizar atuações deste ou de outro toureiro, a noite era de Moura, se ao Patriarca assistimos ao pundonor no segundo, por não ter tido opções no de saída, um Coimbra demasiado gordo, tardo nas investidas e embroques, no segundo, quarto da ordem, um Romão Tenório muito no seu tipo e comportamento, parou-o de forma exemplar e deixou-lhe um ferro, com o touro a sair dos curros, daqueles de nos levantar dos lugares. A noite continuava a ser de Moura, João filho, plazeado, confiante e seguro, no Coimbra, segundo da corrida deu-lhe a lide ajustada, cavalos bem postos e ferros no sítio, com classe, torería e chegando ao público, forma-se uma figura. No quinto, um Romão Tenório mais aplumado, causou-lhe maiores dificuldades mas não chegaram a ser problemas, menos transmissão do oponente, a mesma ou mais entrega do toureiro.

E continuávamos a ter Moura, agora com Miguel, que noite! Que desplante, que maneira de estar na presença do Pai e do Irmão, sem querer perder nem a feijões, no terceiro, com o cavalo Paim começou o lio ao pará-lo, um Romão Tenório nobre, com muita mobilidade, à medida para um triunfo gordo, ferros de poder a poder, batidas sem exageros e cavalo a sair limpo e sem toques, ferros com touro debaixo do braço. No sexto, um Coimbra que saiu com muitas patas, recebeu com um ferro porta gaiola, talvez para mostrar que o havia acontecido no terceiro não tinha sido obra do acaso, mais meia dúzia de ferros no sitio e a praça confirmava que a noite era de Moura, dos três, dos quarenta anos, da Escola que passou e passará, da doutrina transbordante e das razões que levaram aficionados, figuras do toureio, público em geral a aplaudir de pé Moura.

Até o pequeno Tomás, de curto, mas cheio de maneiras, volta para Monforte com uma volta no Campo Pequeno e um ramo de flores. A primeira de muitas com certeza.

Nas pegas perfilaram-se os grupos mais próximos da Família Moura, Portalegre, Arronches e Monforte, noite sem problemas, eficaz, limpa e vistosa, touros na generalidade bem ajudados e com cites corretos, discretos e templados dos forcados de cara.

Pegaram, por esta ordem, João Fragoso (Portalegre) à segunda, Manuel Cardoso (Arronches) à primeira, Nuno Toureiro (Monforte) à primeira, Ricardo Almeida (Portalegre) à primeira, Fábio Mileu (Arronches) à segunda e Pedro Peixoto (Monforte) à primeira.

Os seis touros foram vistosamente rabejados com saídas muito aplaudidas pelo público.

A noite acabou com mais Moura, agora a pé, com João Augusto, que trouxe um novilho pequeno, de Torre de Onofre, muito nobre, fixo, voluntarioso mas sem força, pena que queria e não podia e João Augusto merecia. Tratou-o nas pontas dos dedos, levava-o sem castigo, por ambos os pitons, e o animal queria, sobretudo de longe, procurava galopar mas sem poder. Ainda se pode ver a tranquilidade de João Augusto e o que de bom corre nas veias dos Torre de Onofre.

Apenas João Moura não quis dar volta no primeiro, por vergonha toureira, por compromisso, e porque na vida nada é oferecido, tem que se merecer, assim foram quarenta anos, quatro décadas, e mais virão, podem não ser pela mão e já sob o mando das pernas do Maestro, mas por outros será, a escola está viva, precisa-se e recomenda-se.

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