Évoquemos uma citação frequentemente atribuída a Carl Gustav Jung: “A solidão não é apenas a ausência de pessoas ao nosso redor, mas sim a incapacidade de comunicar o que verdadeiramente nos importa.” Embora a forma deste pensamento possa variar, a essência permanece fiel à visão de Jung. No seu livro, Jung expressa que **a solidão pode surgir da dificuldade em transmitir aquilo que realmente valorizamos** ou de sustentar ideias que os outros não conseguem compreender. Ele também sugere que uma parte da nossa experiência interna é fundamentalmente complexa de comunicar, mesmo com o uso da linguagem. Para ele, essa forma de solidão está **profundamente ligada não apenas ao isolamento social, mas à distância entre as consciências e à dificuldade de expressar o nosso mundo interior.**
A solidão não se manifesta apenas em apartamentos vazios ou telefones que nunca tocam. Às vezes, ela se assemelha a uma mesa cheia onde todos falam, mas onde alguém sente silenciosamente que **ninguém a compreende.**
É esse tipo de solidão que Jung descreveu em uma de suas reflexões mais impactantes. O psiquiatra suíço, que ajudou a formar as ideias modernas sobre o inconsciente, articulou que **“a solidão não resulta da ausência de pessoas ao nosso redor, mas da incapacidade de comunicar as coisas que parecem importantes para nós.”**
Uma solidão escondida

Trata-se de algo além de estar fisicamente só. É o sentimento de ser **incompreendido** a um nível mental ou emocional, como se o nosso mundo interior falasse uma língua que ninguém mais domina.
Esta distinção é crucial. Segundo a Saúde Pública França, a solidão refere-se ao sentimento de falta de laços significativos, enquanto o isolamento social diz respeito à ausência objetiva de relações ou contactos regulares. É notável que uma pessoa possa ter um círculo social extenso e, ainda assim, sentir-se **sozinha.**
É precisamente por isso que esta citação ressoa fortemente nos dias de hoje, pois indica um problema mais insidioso: a dor de ter pessoas ao nosso redor sem um verdadeiro vínculo entre o que sentimos e o que os outros percebem.
Por que este problema é urgente
A solidão tornou-se um problema de saúde pública, não é apenas uma questão de sofrimento privado. A Organização Mundial da Saúde indica que cerca de uma em cada seis pessoas no mundo sofre de solidão e destaca a importância dos laços sociais para a **saúde mental, saúde física e longevidade.**
Isto significa que a solidão não se reduz a um simples conselho de “sai mais”. Para muitos, o problema não é a falta de convites, discussões em grupo ou saídas com amigos. É o sentimento de que a sua parte mais essencial permanece **inaudível.**
Um relatório da Comissão da OMS de 2025 adverte sobre o vínculo entre a solidão e o isolamento, apontando riscos aumentados de depressão, doenças cardíacas, acidentes vasculares cerebrais, declínio cognitivo e morte precoce.
Isto não indica que cada momento de solidão se torne uma urgência médica. Contudo, explica por que os especialistas agora consideram o **vínculo social como um elemento fundamental da saúde.**
Quando a mente parece desfasada

Jung conheceu bem esse sentimento. Na infância, passava muito tempo sozinho, imerso na sua imaginação, nos seus sonhos e em questões que parecia difícil partilhar com os outros.
Ele avançou, então, que a solidão pode surgir da percepção ou entendimento de algo que os outros preferem silenciar. O que acontece quando a sala está cheia, mas o assunto mais importante permanece um tabu?
Isso pode acontecer com pessoas dotadas de **grande inteligência, sensibilidade extraordinária ou um espírito muito independente.**
Uma estudo de 2024 publicado em Exceptional Children revelou que a solidão em alunos com altas capacidades é influenciada tanto por traços pessoais quanto pelo contexto social, incluindo o número de amigos, a aceitação pelos colegas e a vitimização.
O fardo de não se encaixar
Algumas pessoas não são tímidas, impopulares ou incapazes de socializar. Elas conseguem se integrar facilmente em grupos, mas, interiormente, sentem-se como **estranhas.**
O psiquiatra Rami Kaminski utiliza o termo “otroverti” para designar pessoas que sentem estar à margem de qualquer grupo, mesmo sendo aceitas. Seu trabalho considera esse fenómeno não apenas como um problema social, mas como uma relação diferente com a própria **pertinência.**
Essa ideia refina a antiga observação de Jung. O problema nem sempre reside no rejeição; muitas vezes, está no esgotamento de ter que explicar-se constantemente, na esperança de que alguém compreenda o que realmente se quer dizer.
Mudanças de vida podem aprofundar a distância
As circunstâncias pessoais podem também criar esse tipo de distância. Mudar para um novo país, mergulhar numa cultura diferente, mudar de escola, perder alguém querido ou recomeçar após uma separação pode tornar as palavras familiares de repente **insuficientes.**
A linguagem é apenas um aspecto do problema. Os códigos sociais também evoluem, incluindo o humor, os bons modos, a interpretação emocional e o que as pessoas consideram suficientemente importante para discutir.
Por isso, uma pessoa pode estar rodeada de colegas de classe, colegas de trabalho, vizinhos ou familiares e, no entanto, sentir-se **distante deles.** O corpo está presente, mas o que sente não encontrou o seu espaço.
Criar ligações mais sólidas

Não existe uma solução mágica para esse tipo de solidão. Muitas vezes, a resposta não reside em impor-se em todos os espaços: em todos os locais, todos os grupos, todas as conversas.
Um primeiro passo é demonstrar **um pouco de honestidade.** Dizer uma verdade que normalmente escondemos pode verificar se um diálogo é possível, seja ao partilhar uma emoção, admitir um receio ou nomear o que realmente nos importa.
Mas o contexto é importante. Nem todas as audiências merecem que se seja vulnerável. E nem todas as conversas podem ser carregadas de sentido. Escolher a pessoa e o momento certo é também uma forma de **se proteger.**
As ligações podem começar pequenas.
Saúde Pública França recomenda reforçar os laços pedindo ajuda, oferecendo apoio aos outros e priorizando relações de qualidade. Isso pode soar simples, mas simples não significa **fácil.**
Por vezes, a ligação constrói-se sobre um terreno comum, não necessariamente sobre uma compreensão perfeita. Uma piada, uma refeição, um passeio, uma canção ou um pequeno gesto de bondade podem representar a primeira **tábua.**
No final das contas, a ideia de Jung não é que as pessoas solitárias tenham que ser mais interessantes, mais agradáveis ou mais compreensíveis. Trata-se, antes, de mostrar que a verdadeira amizade repousa na capacidade de **permanecer fiel a si mesmo enquanto se dirige aos outros.**
Este artigo é oferecido a título informativo e reflexivo. Não constitui, em nenhuma circunstância, um aconselhamento médico, psicológico ou profissional. As noções aqui abordadas baseiam-se em investigações publicadas bem como em observações editoriais, e não resultam de uma avaliação clínica. Para a sua situação específica, consulte um profissional qualificado.




