À Portuguesa e com ambiente, na despedida de São João

Sanjoaninas – Corrida à Portuguesa, 30 de Junho

 

A Monumental Praça de Toiros da Ilha Terceira acolheu na tarde de domingo a quarta e última corrida das Sanjoaninas 2019. Com uma casa muito forte, e com os aficionados sedentos de toiros bravos e artistas à altura, criou-se propício ambiente para a contenda que se avizinhava, da qual faziam parte os cavaleiros Filipe Gonçalves, João Pamplona e João Salgueiro da Costa. Toiros das divisas locais, três da Casa Agrícola José Albino Fernandes, e três de João Gaspar, bem como forcados da Tertúlia Tauromáquica Terceirense, Ramo Grande, e Amadores Luso-Americanos.

Ainda antes das cortesias, pisou a arena a Sociedade Filarmónica Nova Aliança, banda proveniente da Califórnia, que abrilhantou primorosamente o espectáculo. Quem o reconheceu foi Filipe Gonçalves, que brindou a sua primeira lide aos músicos da banda. O cavaleiro algarvio, colocado no cartel da primeira e desta última corrida da Feira de São João, fez longa jornada nos Açores, e tem já próximo compromisso na ilha de São Jorge. Filipe Gonçalves lidou um exemplar de José Albino Fernandes, o número 81 tinha boa estirpe, acometia ao cite do cavaleiro e transmitia bastante. Na cravagem dos curtos, andou correto, logrando bons ferros, reuniu com batida ao pitón contrário, e embarcou o toiro na garupa do cavalo em brega vibrante. Destaque para o terceiro ferro curto, no alto da cruz, e com o toiro a meter a cara debaixo da casaca do cavaleiro. Saltou a trincheira Tomás Ortins, pegando à barbela e à segunda tentativa pelos Amadores da Tertúlia, depois de um primeiro intento em que o toiro tirou a cara ao reunir com o forcado.

O segundo da tarde coube em sorte ao terceirense João Pamplona, mais um hastado da divisa verde e vermelha, com mais cara que o primeiro, e que pesava 516 kg. O cavaleiro da Quinta do Malhinha iniciou a lide a acusar o compromisso, toureando perante o seu público e numa feira exigente. Após os compridos, trocou de montada e cravou o primeiro curto, abrindo demais na reunião. O marialva ajustou distâncias, sentiu-se mais a gosto frente a um toiro bastante disponível, e com mão certeira colocou bons ferros ao compasso da música, destacando-se um quinto curto de verdade, numa lide em crescendo. Pegaram os Forcados do Ramo Grande, Luís Valadão não aguentou os derrotes, consomando a pega à terceira tentativa e com o grupo a carregar.

Era altura de entrar em acção João Salgueiro da Costa, cavaleiro franzino mas aguerrido, condimento que todos recordamos do pai Salgueiro. Saiu-lhe o terceiro “Albino” da tarde, toiro sério de apresentação e de córnea bem traçada, número 30 no costado. Este “Empreiteiro” era um pouco andarilho, o que dificultava a sua colocação em terrenos para a cravagem dos curtos. Salgueiro da Costa havia dito que tinha trazido à ilha Terceira os titulares da sua quadra de cavalos, e provou-o com uma montada de ferro Pablo Hermoso, soberbo. O cavaleiro toureou a gosto, na brega recortou entre tábuas e colocou um terceiro curto com reunião bem cingida. Esteve bem e com entrega, cravando os últimos ferros em terrenos de compromisso, numa altura em que o toiro tomou crença nas tabuas. Michael Lopes, cabo dos Amadores Luso-Americanos, brindou ao Presidente da Câmara, e citou com garbo e alegria no rosto, consomou à segunda tentativa com valentia, uma pega de valor e a evidenciar a qualidade que este rapaz tem a pegar toiros.  Volta solitária para o forcado, uma vez que Salgueiro da Costa apareceu no pátio de quadrilhas visivelmente tocado na perna direita, impossibilitando a merecida volta.

O segundo toiro do lote de Filipe Gonçalves vinha da ganadaria de João Gaspar, número 38, um preto malhado de córnea bem armada. O cavaleiro tinha pela frente um botinero que arrancava de longe e carregava nas sortes. Primeiro ferro curto ao quiebro, rematando com brega ladeada. Consentiu um toque forte na montada ao tentar cravar o segundo curto, com o toiro a meter a cara por alto. O hastado era exigente, levando a passagens em falso e reuniões em que o cavaleiro dava mais distâncias. Mesmo assim, arrecadou bons ferros com batida ao pitón contrário e que agradaram as bancadas. Houve tempo ainda para trazer à arena o cavalo Xique, com o qual cravou em sorte violino, e colocou um ferro de palmo com que terminou a lide e a sua passagem pela feira. Na pega, o toiro arrancou de pronto e Francisco Matos fechou-se à primeira tentativa, boa pega dos forcados da Tertúlia Tauromáquica Terceirenses, sendo a única deste grupo ao primeiro intento ao longo da feira.

O jovem Pamplona lidou o quinto da ordem, toiro com o número 39, com o ferro de João Gaspar. Depois da ferragem comprida ter resultado regular, e ter acertado a mão no segundo comprido, João Pamplona trabalhou o oponente e depois de um curto ameno, puxou pelo público e subiu a pulso, cravando com correcção quatro curtos en su sítio, destoando uma passagem em falso antes da colocação do quinto ferro, terminando a lide ao som da filarmónica, frente a um hastado da ganadaria terceirense que nobremente cumpriu a função. Pelos Amadores do Ramo Grande foi cara o forcado André Lourenço, pegando de forma irrepreensível à primeira, com o grupo coeso num acto colectivo.

A corrida ainda não tinha terminado e já deixava saudades, faltava lidar o toiro mais pesado do espectáculo, um “Boss” de João Gaspar que acusou na balança 588 kg. Havia a incerteza se João Salgueiro da Costa iria lidar, depois do percalço ocorrido no primeiro do seu lote. Apareceu a custo e sem o estribo direito na montada. Andou certeiro na colocação dos compridos, mas não foi tão feliz na cravagem dos primeiros curtos, que acabariam caídos na arena. O cavaleiro impôs-se frente ao temerário toiro de João Gaspar, que não virava a cara à luta, e logrou um quarto e quinto ferro curto de destaque, ajustando as reuniões que resultaram em sortes emotivas. O público pediu mais ferros, mas Salgueiro da Costa valeu-se de modéstia e soube sair por cima. O toiro que rematava bem no alto, dificultou bastante a labuta dos forcados Luso-Americanos. Manuel Cabral viu-se grego perante a aspereza com que o toiro metia a cara, consomando apenas à quinta tentativa e a sesgo o imponente “Boss”.

Findava a corrida, findava a Feira de São João. Os toiros que saíram da porta dos sustos em muito contribuíram para o aprazível ambiente em que a corrida decorreu, no geral bem rematados de peso e com bom comportamento. Assistiu-se a lides interessantes e que chegaram às bancadas. Pegas de grande valor, tanto pelos grupos locais, bem como pelos Amadores Luso-Americanos, representados apenas por onze elementos trajados, mas que deram prova e mostraram a fibra de que são feitos. Quando assim acontece, todos ficam satisfeitos, e é sinal que a Festa Brava está bem e recomenda-se. Olé para todos nós!

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