A Importância dos Valores

Crónica

Começo este meu primeiro artigo de opinião, no Tauronews, agradecendo o convite que me foi dirigido por um amigo de longa de data, dos momentos de partilha e aperto nas arenas que nos levou a uma sincera amizade.

Amizade, palavra cara mas a palavra certa, para “abrir Praça” nestas lides. Na época do digital e das amizades “facebookianas”, utilizamo-la certamente vezes sem conta, sem pararmos para pensar no seu valor e no que nos leva a utilizá-la. Originária do latim amicus, tem o sentido amplo de significar o relacionamento humano, que envolve a afeição mútua, a lealdade e o altruísmo.

Valores que facilmente identificamos, pelo menos por quem lá andou ou anda, com o ambiente vivido no seio da tauromaquia e, em especial, num Grupo de Forcados, mesmo que por momentos invadidos pelo desânimo e descrédito, tenhamos a tentação de assumir que nada é como antes.

A esse capítulo lá irei, um destes dias. Agora, importa valorizar o que realmente interessa: os valores que a tauromaquia nos transmite – nos grupos de forcados em especial em defesa da minha dama – e que perduram na eternidade da nossa personalidade. 

Cresci em Alcochete, vila aficionada, por muitos e por mim, intitulada “Terra Mãe de Forcados”. Aprendi a vida convivendo com gente humilde que cresceu com o Tejo a seu lado e a capital no horizonte, do outro lado da margem. Fui testemunha e actor do sofrimento que a força do toiro bravo emprega, sem nunca ser capaz de destruir o compromisso de honrar a jaqueta que se veste.

O toiro bravo, o centro da tauromaquia, essa fera negra, símbolo da morte e do medo, que nos olha nos olhos e nos causa mil sensações, que aprendemos a admirar, no verde prado, e a amar, pelo comportamento na arena. Por muito que nos custe explicar, ou a outros entender, é para nós aficionados, o animal que mais respeitamos e que mais nos fascina, actor principal de muitas pinturas de Picasso ou poemas de Garcia Lorca, e de tantos outros seres pensantes e intelectuais da História do nosso Mundo.

O crescimento das cidades e das culturas urbanas produz, todos os dias, impactos negativos no relacionamento entre pessoas e na relação do ser humano com o campo, com a natureza e com os seus costumes de partilha e convivência. Os novos tempos potenciaram radicalismos, microculturas radicais, que vieram desertificar o campo e menosprezar a memória, os valores e símbolos que, durante séculos, deram a Portugal identidade e nos afirmaram enquanto povo.

É certo que o desenvolvimento produziu avanços importantes na liberdade de cada um de nós e grandes ganhos civilizacionais que valorizamos. Mas o problema é que hoje quer fazer-se crer que é socialmente errado ou retrógrado ser-se aficionado, amante da caça ou ir ao circo. 

Só  quem não conhece nem teve, um dia, oportunidade de conhecer os valores que nos regem, é que pode ousar insultar-nos quando, em pleno direito e liberdade, defendemos um espectáculo reconhecido pela Constituição Portuguesa. 

As mentes “iluminadas” e “evoluídas” defendem que a tauromaquia é uma “barbárie” e que produz comportamentos agressivos nos seus seguidores (aficionados), com especial impacto nas crianças, mesmo que sejamos nós os insultados e que vejamos o nosso espaço invadido de forma ofensiva com regularidade.

A sociedade de hoje desperta os jovens para muitas experiências e transporta-os, diariamente, numa educação que os leva à individualidade e à valorização do ter em detrimento do ser, onde o que importa é o que  se tem e não o que se é ou se dá ao próximo…

Recorrendo à experiência, recordo como foi e é importante, para muitos jovens, a presença no seio dos grupos de forcados para o desenvolvimento do seu carácter, onde são ensinados a respeitar uma hierarquia, a antiguidade e o parceiro do lado, onde aprendem o compromisso de lealdade, a frontalidade e a amizade.

Ao longo de mais de um século, centenas de milhares de Homens têm dedicado os seus melhores anos (a juventude) a um compromisso de honra e coragem, colocando em risco a própria vida, sujeitos ao sabor amargo da tragédia e da dor, apenas superada com a união fomentada por sentimentos sinceros, leais e honestos, que mais tarde ou mais cedo, são visivelmente transportados para os lares, locais de trabalho e espaços de convivência em sociedade.

Tenhamos, por isso, coragem de defender os nossos direitos e liberdades e assumir que a tauromaquia nos ensina, e muito contribui para que sejamos melhores profissionais, melhores pais, melhores filhos e irmãos, ao contrário da dita evolução mental que a actual sociedade nos quer  impingir a troco da uniformização das culturas e sociedades. 

 

Nota: A escrita deste artigo não se encontra ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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