Saiba mais sobre: A alimentação do toiro de lide

A alimentação é um dos aspectos mais importantes da produção de gado bravo.

O gado bravo pasta livremente. Apesar disso, a alimentação vai muito além dos recursos naturais, sendo necessários vários cuidados ao longo da vida dos animais, pois embora obedeça aos mesmos critérios básicos de qualquer outro gado vacum, o toiro bravo apresenta algumas características especiais no que concerne à sua nutrição.

A principal diferença do bravo, quando comparado com outras raças, é que o seu destino não é a carne ou o leite, mas antes a actividade física durante os espectáculos sendo precisando de encontrar-se no pleno nas suas capacidades.

 

 

E se é verdade que a bravura enquanto característica única desta raça existe por via genética, também é verdade que a alimentação pode influenciar positiva ou negativamente a forma como ela se manifesta em praça durante os poucos minutos em que decorre a lide.

Se um toiro for bem alimentado ao longo da vida, tem, com certeza, maior probabilidade de se apresentar com mobilidade e vivacidade durante a lide.

Pelo contrário, as reses que tenham sido alimentadas deficientemente não só apresentam uma maior incidência de doenças, como se verifica uma menor fertilidade na vacada, ao passo que, em praça, apresentarão menor rendimento.

 

 

Vejamos então como é a alimentação das reses bravas ao longo da sua vida.

 

Os recursos naturais

A forma primária de alimentação dos toiros e vacas bravas é o pasto – recurso natural de que dispõem a campo.

Por ser natural e por ser economicamente mais vantajosa, a alimentação através dos recursos naturais é a base principal e estes são aproveitados ao máximo.

 

 

Contudo, pelas mais diversas razões, esses recursos naturais podem não ser suficientes para colmatar as reais e efectivas necessidades do gado bravo, seja em quantidade seja em qualidade.

Razões que passam pela insuficiente extensão do pasto nas ganadarias, ou, anos de seca ou de aluvião, aumento do número de efectivos, entre outros, levam a que os ganaderos tenham que complementar a alimentação do efectivo com concentrado.

Em muitas explorações as superfícies de melhor qualidade destinam-se ao cultivo de cereais, pela sua maior rentabilidade, ficando à disposição do gado bravo aquelas com piores características, que oferecem pastagem de pior qualidade, pelo que nas ganadarias bravas não é raro observar casos de subnutrição e paragens de crescimento.

Para além do mais há actualmente um maior número de reses por hectare que em outros tempos, pelo que diminuíram também os recursos por cabeça.

Por todas estas razões, entre outras, torna-se imprescindível suplementar a alimentação a fim de obter animais aptos para a lide.

Para consegui-lo os ganaderos têm garantir que o crescimento seja harmonioso e contínuo, evitando que os animais percam peso em todas as etapas da sua vida porque se isso acontecer fica comprometido o seu perfeito desenvolvimento ósseo, muscular e neurofisiológico. Podem até dar-se fenómenos de desmineralização, que em muitos casos são irreversíveis e que condicionam a resposta e resistência durante a lide.

 

Complementar a alimentação

Complementar a alimentação do futuro toiro de lide desde  bezerro até “às vésperas” de ser lidado, é uma necessidade inultrapassável.

 

 

Estas são as boas práticas, no que à alimentação concerne e que se afastam da “engorda intensiva” que só tem inconvenientes.

A saber:

  • Se o toiro chegou à idade regulamentar e não atinge o peso mínimo significa que, provavelmente passou por alguma fase de subnutrição, de paragem de crescimento ou de perda de peso e por isso não se desenvolveu correctamente (principalmente ao nível da sua estrutura óssea).
  • O animal terá menos força pois aumentou vários quilos em poucos meses. Quilos que não está habituado a suportar e que não foram acompanhados de ginástica funcional, o que vai resultar em falta de força durante a lide.
  • Grande perda de peso durante o manejo, enjaulamento, transporte, desenjaulamento, embolação, etc. – porque o quilos que se ganham rapidamente também rapidamente se perdem.
  • O animal ganha peso em forma de gordura e não em massa muscular.

Outra preocupação que ocupa os ganaderos é a de preparar concentrados específicos para cada idade do animal a alimentar.

É um procedimento difícil, porque é preciso elaborar pensos devidamente equilibrados e especificamente elaborados fugindo daqueles cujo fim é a engorda do gado manso, por não ser adequado aos objectivos da lide.

 

Vitelos

 

 

As vacas não conseguem transferir as suas imunidades através da placenta e por isso os bezerros nascem praticamente sem defesas.

É através do colostro que os bezerros adquirem as suas primeiras imunidades.

A extrema importância do colostro resulta da sua composição constituída por anticorpos, uma grande percentagem de gordura e maior concentração de vitamina

Depois do primeiro mês de vida o bezerro começa a ingerir alimentos sólidos. Desde aí até ao desmame, que acontece quando atingem seis a oito meses de idade, é muito importante que disponham de abundante alimento, rico em proteínas.

Bezerros

Depois do desmame e da separação dos bezerros das mães, a alimentação diversifica.

Os animais começam então a comer concentrado, denominado “de vitelos”.

Nesta fase as necessidades alimentares são, em primeiro lugar a energia, proteínas, minerais e vitaminas necessárias para que o animal sobreviva e ganhe peso à medida que desenvolve ossos e músculos.

 

 

 

Garraios

Na alimentação dos garraios há que ter em conta vários factores. Em primeiro lugar o animal continua o seu desenvolvimento, o qual deverá ser harmonioso e assim há que ter em conta a crise que sofre devido à mudança na dentição, o que poderia resultar numa estagnação do crescimento e inclusivamente na diminuição do peso em alguns casos, efeitos indesejados que devemos evitar.

A correcta nutrição nesta fase da vida dos animais é determinante, sendo imprescindível uma avaliação directa pelos ganaderos e maiorais para verificar necessidades específicas, que podem variar, de ano para ano em cada ganadaria.

 

 

 

Novilhos

 

Se até aqui tiver existido uma alimentação equilibrada chegamos à idade de novilhos com indivíduos bem conformados e com um óptimo desenvolvimento do ponto de vista ósseo e muscular.

Nesta fase verifica-se um equilíbrio nas necessidades, pelo que devem a alimentação deve respeitar o ritmo de aumento de peso sendo muito importante que este aumento não seja em forma de gorduras.

A ginástica funcional aliada à alimentação em quantidade e qualidade adqueadas serão determinantes para atingir no estágio etário seguinte, um animal, com trapio, ao invés de um animal grande e / ou gordo.

 

Toiros

 

 

Ao chegar a esta idade, havendo seguido as pautas anteriores, é suposto encontrar um animal totalmente “feito” e totalmente ossificado.

A alimentação perde a relevância em termos de crescimento e desenvolvimento morfológico para ganhar espaço quanto ao bem-estar.

A alimentação, como sempre ao longo da vida, deve basear-se nos recursos naturais mas deverá, à partida, ser complementada com concentrados.

Apesar de não ser prática comum em Portugal, existem, para além dos concentrados genéricos, concentrados específicos. Para estes são feitos estudos aos solos das ganadarias e uma pormenorizada avaliação às especificidades de cada ganadaria. Assim, o concentrado é elaborado com base nas necessidades reais e concretas dos animais.

 

Sementais

Considerando o pequeno número de sementais que existem nas ganadarias é certamente difícil e pouco económico fazer um concentrado específico para estes animais.

Ainda assim, é necessária uma alimentação abundante e equilibrada para que o esperma tenha o máximo poder fecundante.

Os semantais não estão, à partida, sujeitos a oscilações na actividade física, pelo que a alimentação nesta fase está focada no bem-estar animal e nas suas capacidades como reprodutores.

 

 

 

Alimentação da vacada

A vida reprodutiva de uma vaca que seja adequadamente alimentada pode chegar entre dezasseis a dezoito anos.

Entre cada parição, a vaca passa por várias fases caracterizadas por distintas necessidades nutricionais.

Uma característica interessante das vacas bravas é que conseguem garantir as suas necessidades nutricionais de acordo com os recursos de que dispõem, armazenando reservas corporais quando o pasto é abundante, para as gastar nos períodos em que mais necessitam, como o final da gestação, princípio do aleitamento e também nos períodos de escassez de recursos (Verão e Inverno).

O período em que é necessário um maior aporte de alimento é nos primeiros três meses após o parto.

A produção de leite exige a ingestão de uma grande quantidade de alimento de boa qualidade.

 

A temática da alimentação do toiro tem sofrido uma grande evolução ao longo de anos de criação e selecção do toiro bravo, muito além da constatação que uma correcta alimentação é fundamental para que o toiro possa exprimir toda a sua bravura, no uso pleno das suas capacidades físicas. Cada vez mais os ganaderos têm em vista o bem-estar animal e o aperfeiçoamento nas técnicas de elaboração de concentrados tem permitido chegar cada vez mais «perfeitos» do ponto de vista morfológico. Porque aafinal, trapio, nada tem a ver com peso!

 

SL.

 

Bibliografia

Jimeno Vinatea, Vicente, in «Gestión de La Alimentación del ganado de lidia: del nacimiento a utrero».

Díaz, Manuel Pizarro.

Dr Jose luis castillo Garde, Colóquio UCTL

 

 

Artigos Similares

Destaques