A solidão ou uma infância sem afeto nem sempre se manifestam de forma previsível. É possível sentir-se só mesmo rodeado por pessoas queridas, em ambientes familiares e acolhedores. Às vezes, a solidão infiltra-se de forma silenciosa, tornando-se parte da rotina. Chegamos a ignorá-la em nosso dia a dia, enquanto se introjeta nos gestos banais e nos silêncios partilhados. Essa sensação é especialmente difícil de identificar em contextos familiares.
Certa vez, fui tocada por uma cena que presenciei: um pai já idoso folheava calmamente o jornal na sala, enquanto o filho adulto bisbilhotava o telemóvel a poucos metros dele. Compartilhavam o mesmo espaço, a mesma casa, mas estavam separados por uma distância invisível. Nenhuma troca de palavras, nenhuma curiosidade, apenas uma coexistência silenciosa entre duas almas que se conhecem desde sempre.
Essa imagem lembrou-me de uma realidade que tenho observado com frequência: quantas pessoas após os 60 anos podem sentir-se profundamente sozinhas, mesmo ao lado dos seus familiares?
Várias investigações corroboram essa ideia. Uma estudo publicado destaca que uma relação parental marcada pela falta de atenção ou por uma proteção excessiva pode estar ligada, na idade adulta, a uma maior sensação de solidão e isolamento social em indivíduos com mais de 50 anos.
No entanto, o que as investigações frequentemente não conseguem captar é o cotidiano vivido. O momento de se sentar à mesa, cercado por entes queridos que partilham o mesmo sobrenome, e ainda assim sentir um elo de distanciamento. É como se observássemos a nossa própria vida de fora, sem realmente nos sentirmos incluídos.
1. A falta de contacto físico, uma necessidade invisível

A afectividade não se limita apenas às relações românticas. Refere-se a gestos simples que transmitem a mensagem de «tu importas»: uma mão no ombro, um abraço inesperado ou até um toque amistoso.
Aqueles que passaram uma infância sem afeto frequentemente tornam-se adultos desajeitados nas interações sociais, hesitando entre um aperto de mão e um beijo.
Recentemente, uma amiga confidenciou-me que não recebia um abraço há seis meses. Já é casada há quarenta anos. Partilham a mesma cama, fazem refeições à mesa, assistem às mesmas séries.
Mas o contacto físico? Esse parece ter desaparecido ao longo do tempo, e nenhum dos dois sabe exatamente como reverter a situação.
2. O medo de ocupar o seu espaço, de “fazer demais”
Crescendo num ambiente com ausência de afecto, muitos aprenderam a minimizar as suas necessidades: não buscar demasiada atenção, evitar a expressividade emocional.
E não ocupar muito espaço. Hoje, décadas depois, continuam a ser discretos, temendo que a sua verdadeira essência afaste os outros.
Às vezes, surpreendo-me a mim mesma a agir assim. A encurtar as minhas histórias, a pedir desculpas pelos meus sentimentos, a fazer de conta que estou bem quando não estou. É exaustivo manter essa versão editada de mim.
3. O dilema do perfeccionismo emocional no caso das pessoas com uma infância sem afecto

Quando o amor é condicionado na infância, muitos aprendem que «ser bom o suficiente» significa ser perfeito.
Hoje, com 60 ou 70 anos, ainda se esgotam a tentar conquistar um afecto que deveria ser incondicional.
Durante décadas, acreditei que, se trabalhasse mais, me organizasse melhor ou realizasse mais tarefas, acabaria por me sentir digna.
A revelação de que já sou suficientemente boa como sou chegou tardiamente, após a leitura de um livro que desafiou completamente a minha perspectiva. Alguns de nós ainda aguardam esta tomada de consciência.
4. Os substitutos da verdadeira intimidade
O trabalho, os hobbies, as causas humanitárias: são actividades que muitas vezes substituem a verdadeira intimidade. É mais seguro dar amor às plantas do que correr o risco de se dedicar a alguém.
As plantas não te rejeitam. O voluntariado não exige vulnerabilidade. O trabalho não te abandonará (pelo menos até à reforma, quando percebes que as amizades profissionais eram mais sobre proximidade do que outra coisa).
Após a reforma, um dos meus tios perdeu vários amigos quando se tornou evidente que, sem o trabalho que os unia, não tinham muito a dizer. Substituíram as interacções genuínas por conversas à volta da máquina de café, e uma vez que a máquina desapareceu, também suas relações se desvaneceram.
5. As dificuldades em verbalizar emoções são comuns entre aqueles que cresceram sem afecto

Crescer sem poder expressar emoções é como crescer sem aprender a sua língua materna. Compreendemos as bases, mas as nuances escapam-nos. Sabemos que sentimos algo, mas não conseguimos nomear, expressar ou partilhar.
Psychology Today refere que « adultos que tiveram pais emocionalmente negligentes podem ter dificuldades em expressar emoções vulneráveis e podem se comportar de forma desapegada ou distante».
Este desapego torna-se uma forma de prisão. Queremos criar laços, mas simplesmente não temos o vocabulário.
6. O sentimento do síndrome do muro invisível
Já sentiu aquela sensação de tentar dizer a alguém que o ama, mas as palavras ficam presas entre o coração e a garganta?
Isso é o que chamo síndrome do muro invisível. Aqueles que cresceram sem afecto frequentemente erguem esses muros tão lentamente que só se apercebem quando se tornam quase intransponíveis.
Vejo isso na forma como interagem com os seus filhos. Oferecem tudo, exceto o essencial: uma presença emocional. Levam-nos a todos os jogos de futebol, financiam os estudos, ajudam na entrada da casa, mas ao pedir-lhes para dizer «Tenho orgulho em ti», notam-se uma mudança imediata de assunto para o clima.
7. A hipersensibilidade ao rejeição persiste entre aqueles que cresceram sem afecto

Qualquer afronta percebida, uma chamada sem resposta, uma reacção morna, e velhas feridas reabrem-se.
Aqueles que cresceram sem afecto manifestam, frequentemente, uma hipersensibilidade à rejeição. Percebem abandono onde existe apenas desinteresse. Interpretam actos como indiferença.
Essa hipersensibilidade gera uma profecia autorrealizável. Primeiro, retrai-mo-nos para evitar feridas, mas, no final, as pessoas deixam de se esforçar para se aproximar.
8. O reflexo do cuidador
Uma observação que fiz é que aqueles que não receberam afecto geralmente desenvolvem um impulso compulsivo de ajudar os outros.
Aprenderam cedo que a única maneira segura de criar laços era ser útil. O amor traduz-se em serviço. O valor manifesta-se na produtividade.
Estas são as pessoas que organizam todos os encontros familiares, que resolvem os problemas de todos, sem nunca pedir ajuda.
No entanto, ajudar não implica criar laços, e no fim, o que ajuda sente-se esgotado, questionando-se por que se sente tão só apesar de todo o que faz pelos outros.
9. A transmissão entre gerações

O mais doloroso é, talvez, a maneira como esse ciclo se perpetua.
Como sublinha a Healthline: «Adultos que sofreram negligência emocional na infância podem, afinal, tornar-se pais que negligenciam emocionalmente os seus filhos.»
Damos o que recebemos, mesmo quando prometemos ser diferentes. O silêncio que experimentámos na infância torna-se o que criamos, não por falta de amor, mas por incapacidade de o expressar.
Romper o ciclo

O que o meu tio aprendeu aos 70 anos é que nunca é tarde para aprender uma nova linguagem emocional. Sim, pode ser desconcertante no início. Sim, podemos cometer erros. Mas a alternativa, passar o resto dos dias atrás deste muro invisível, é muito pior.
Comece com pequenos gestos. Diga a alguém que a aprecia. Peça um abraço quando precisa.
Partilhe um sentimento em vez de se refugiar em tópicos seguros. Ouse ser você mesmo, mesmo que as suas mãos tremam.
A epidemia de solidão que afeta pessoas acima dos 60 anos não se resume a estar sozinho. É o sentimento de se sentir desconhecido, mesmo para si mesmo. Mas cada pequeno acto de coragem ajuda a quebrar esses velhos padrões. Cada momento de vulnerabilidade nos ensina que merecemos estar ligados aos outros, tal como somos.
O jardim que a minha vizinha regava? A filha dela juntou-se a ela pouco a pouco. Não falaram muito, mas aproximaram-se. Às vezes, o processo de cura começa assim: não com grandes gestos, mas com pequenos passos um em direção ao outro, um passo desajeitado e belo.




