Na aposentadoria, o mais difícil não é o tédio, mas deixar de ser necessário, de acordo com a psicologia

Um dos meus tios reformou-se há cinco anos. No início, repetia que tinha finalmente todo o tempo do mundo para se dedicar às suas paixões: bricolage, jardinagem, viagens improvisadas. Os amigos admiravam-no pela liberdade redescoberta. Contudo, com o passar das semanas, via-o cada vez mais silencioso, às vezes sentado no seu sofá, com o olhar perdido. Ele confidenciou-me que os dias pareciam esticar-se até ao infinito. “Acreditamos que a liberdade é um presente”, dizia-me, “mas, por vezes, é um peso inesperado.”

A psicologia afirma que o mais difícil na reforma não é o tédio, mas sim perceber que, pela primeira vez na vida adulta, ninguém precisa de nós num lugar específico a uma hora específica, e que o nosso cérebro interpreta essa liberdade como uma forma de efemeridade.

Na quinta-feira passada, às 10h30, encontrei o meu tio na cozinha, ainda de roupão, com o olhar perdido no vazio. Já tinha passeado o cão, bebido o café e lido o jornal. E agora? Nada. Nenhuma reunião para preparar. Nenhum relatório para entregar. Ninguém o esperava em lado nenhum.

Foi então que ele me explicou o que me era difícil compreender: o estranho peso da liberdade total.

Quando falamos dos desafios da reforma, frequentemente mencionamos o tédio ou as preocupações financeiras. Mas, após anos de observação da vida do meu tio, percebi algo diferente. O mais difícil não é preencher os dias. É perceber, de forma desestabilizadora, que, pela primeira vez em décadas, ninguém conta connosco, aqui ou ali, a nenhuma hora precisa.

E o cérebro? Não sabe como lidar com esta ausência de necessidade.

A estrutura invisível que sustentava a sua vida

Imagens Freepik e Pexels

O meu tio sempre foi um homem organizado, metódico, guiado pelo ritmo do seu trabalho e das suas responsabilidades. Pensemos nisto: durante décadas, a vida dele foi pautada por exigências externas.

As reuniões de segunda-feira de manhã, os prazos dos projetos, até mesmo o simples ato de se vestir, uma vez que era necessário estar apresentável às 9 horas. Não se tratavam de meras obrigações: eram o andaime invisível que sustentava a sua identidade.

A reforma não é um ponto de chegada, mas uma passagem. Não é um evento pontual, mas uma verdadeira transição que perturba as referências e a identidade. Estudos recentes mostram que a transição para a reforma implica uma reconstrução do sentido da vida. Não se vive como um instante isolado, mas inscreve-se numa trajetória pessoal, com efeitos na adaptação psicológica e no bem-estar das pessoas envolvidas.

E as transições, por definição, implicam perder algo familiar antes de encontrar algo novo.

O que ninguém diz é o quão dependente o cérebro é dessas expectativas externas. Não se referem apenas à produtividade, mas à própria existência. Quando desaparecem, uma parte de nós questiona se também desaparecemos com elas.

O meu tio frequentemente confidenciava-me esse sentimento estranho, a impressão de que a vida se havia de repente esvaziado de estrutura.

Quando a liberdade se assemelha a uma queda

Lembra-se dos primeiros passos a andar de bicicleta? Aquele momento em que alguém o soltou e você percebeu que estava sozinho? A reforma é exatamente assim, exceto que tem 65 anos e todos esperam que esteja radiante.

A reforma pode ser uma experiência contrastante: alguns regozijam-se com a liberdade total de fazer o que querem, quando querem. Mas para outros, essa liberdade pode ser fonte de stress. Uma meta-análise estimou que cerca de 28% dos reformados apresentam sintomas depressivos, sublinhando os desafios emocionais associados a esta transição.

Essa estatística gelou o meu tio quando a leu pela primeira vez. Quase uma pessoa em três enfrenta dificuldades emocionais durante o que deveria ser a idade de ouro.

Porquê? Porque o cérebro interpreta a ausência de estrutura como algo muito mais sinistro do que a liberdade. Interpreta-a como uma perda de sentido.

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Assim é como se apresenta a reforma nos folhetos: campos de golfe, cruzeiros, netos, lazer em profusão. Aqui está o que o meu tio realmente sente numa tarde de quarta-feira como tantas outras: um vertigem existencial.

Segundo um estudo da Kiplinger, a reforma pode levar à perda de referências no cotidiano, fonte de tédio e insatisfação.

Este estudo revelou que a implementação de atividades e compromissos regulares pode ajudar a restaurar uma estrutura no dia a dia e a melhorar o bem-estar.

Mas a questão é mais profunda do que a simples necessidade de atividades. Trata-se de importância. Quando ninguém precisa de si em lado nenhum a qualquer momento preciso, o cérebro primitivo começa a colocar questões perturbadoras.

O meu tio questionava-se às vezes: conto ainda? Faço ainda parte do grupo? Fui discretamente apagado da história?

O lado sombrio da reforma

Durante o seu primeiro ano após deixar o emprego, o meu tio vestia por vezes um fato apenas para se sentir normal.

Patético? Talvez. Mas na altura, fazia sentido. Essas roupas eram um vestígio da sua vida passada, e vesti-las, mesmo brevemente, dava-lhe um propósito.

Connie Zweig, doutora em psicologia, autora e psicóloga, faz esta observação:

A reforma é como um teste de Rorschach aplicado ao envelhecimento: projetamos aí os nossos medos e ansiedades, bem como os nossos desejos e fantasmas inassolúveis. Ambos os aspectos são veiculados por figuras inconscientes que chamo de personagens das sombras.

Essas personagens das sombras sussurram coisas como: já acabou para ti, estás ultrapassado, ninguém precisa mais do que sabes.

Inventar os próprios marcos

Então, como resolver este dilema? Como impedir que o nosso cérebro interprete a liberdade como uma forma de apagamento?

A solução não é preencher cada minuto com atividades. O meu tio aprendeu disso à sua custa. Inscreveu-se em cursos de pintura, clubes de xadrez, voluntariado, até numa associação de conserto de bicicletas. Mas estar ocupado não é sinónimo de ter um propósito, e o cérebro sabe disso.

O que funciona é criar o que chamo de “**restrições escolhidas**”. São compromissos assumidos não por obrigação, mas porque estruturam e dão significado aos dias.

Para o meu tio, passear o cão todas as manhãs às 7h tornou-se uma necessidade. Que chova ou faça sol, o cão precisa desse passeio. E, acima de tudo, ele precisa sentir-se indispensável nessa caminhada.

A Psychology Today destaca que “a reforma pode durar mais de 30 anos, já que cada vez mais adultos vivem até os 80 anos ou mais”.

Isso representa potencialmente três décadas durante as quais será necessário criar a própria estrutura, encontrar razões próprias para se levantar pela manhã e estabelecer prazos importantes.

Redefinir o que significa contar

A transição da ação para o ser é mais difícil do que qualquer reestruturação empresarial.

No mundo do trabalho, o valor do meu tio era mensurável: projetos concretizados, receitas geradas, equipas geridas. Na reforma, esse valor torna-se abstrato, interior, mais difícil de quantificar.

Mas pode ser que aqui esteja a essência. A Psychology Today sugere que “a reforma é o momento ideal para realizar o seu pleno potencial”. Não o potencial de ganhos ou produtividade, mas algo mais profundo.

E se o apagamento que o cérebro teme for, afinal, uma oportunidade?

E se a perda da estrutura externa permitir finalmente a construção de uma estrutura interna baseada nos seus verdadeiros valores, e não nas expectativas dos outros?

Encontrar o seu lugar apesar da ausência de regras

O mais difícil na reforma não é o tédio. É aprender a existir sem que alguém precise de nós. É descobrir que liberdade e apagamento podem parecer estranhamente semelhantes, até que aprendamos a distingui-las.

Depois de cinco anos, o meu tio ainda tem manhãs em que se sente desraizado. Mas aprendeu algo importante: ser útil em algum lugar a um momento específico nunca importou verdadeiramente, nem pelo lugar nem pela hora. Trata-se de saber que ele tem importância.

Agora, ele cria os seus próprios marcos. Ele conta para o seu cão às 7h da manhã. Conta para a sua família quando partilha as suas experiências. E conta para si mesmo quando decide investir plenamente na vida que está a construir, mesmo quando ninguém o vigia.

A transição de uma existência imposta para uma existência escolhida é brutal. O cérebro resistirá. Mas além dessa resistência, esconde-se algo notável: a possibilidade, finalmente, de ter um impacto, segundo os seus próprios termos.



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