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Como podemos tornar-nos mais sortudos? A sorte parece, por vezes, recair sempre sobre as mesmas pessoas. Contudo, o que designamos por “sorte” pode depender da nossa forma de observar o mundo e de reagir aos eventos à nossa volta. Esta é precisamente a ideia que o psicólogo britânico Richard Wiseman explorou. Durante quase uma década, Wiseman analisou indivíduos que se consideravam particularmente sortudos ou azarados utilizando entrevistas, questionários e diversas experiências.
A partir das suas observações, identificou quatro comportamentos principais: estar atento às oportunidades inesperadas, ouvir mais a própria intuição, encarar o futuro com otimismo e procurar um aspeto positivo mesmo em situações adversas.
Para validar esses princípios, Wiseman convidou voluntários a colocá-los em prática durante um mês na sua “Escola da Sorte”. No final desse período, cerca de 80% dos participantes relataram uma sensação aumentada de sorte. É importante, no entanto, interpretar esta estatística com cautela.
Este dado baseia-se no sentir dos participantes e no relato de Wiseman, ao invés de ser suportado por um ensaio controlado que demonstrasse objetivamente que se tornaram de facto mais sortudos.
Para ser mais sortudo, Wiseman concentrou-se naqueles que se consideravam sortudos… ou azarados

Para compreender por que algumas pessoas se sentem mais sortudas do que outras, Richard Wiseman iniciou a sua investigação com várias centenas de voluntários que acreditavam ter muita sorte ou, pelo contrário, ser especialmente azarados.
No seu resumo de pesquisas sobre a sorte, o psicólogo explicou ter identificado quatro princípios recorrentes: multiplicar e aproveitar as oportunidades, ouvir a intuição, esperar eventos favoráveis e aprender a extrair algo construtivo das experiências negativas.
É essencial entender que Wiseman não pretendia averiguar se algumas pessoas realmente obtinham melhores resultados em jogos de azar. O seu foco era a percepção que cada um tinha da sua própria sorte.
Sentir-se sortudo depende, de facto, do que nos acontece, mas também da nossa capacidade de notar e interpretar os eventos. Duas pessoas podem enfrentar exatamente o mesmo contratempo e tirar conclusões totalmente diferentes. Um comboio perdido pode ser uma mera contrariedade para uma pessoa, enquanto a outra pode encarar isso como a oportunidade de uma nova amizade ou uma experiência agradável.
Este conceito está alinhado com os estudos dos psicólogos Peter Darke e Jonathan Freedman. A sua escala original de crença na sorte revelou, em parte, que os indivíduos não percebem a sorte da mesma maneira. Alguns veem-na como uma característica estável da sua vida, enquanto outros a entendem principalmente como algo aleatório.
Esses trabalhos não medem exatamente o mesmo que os de Wiseman, mas salientam a importância de definir o que entendemos por “sorte” antes de afirmar que alguém se tornou mais sortudo.
Para tornar-se mais sortudo, a sua “Escola da Sorte” propôs a modificação de hábitos durante um mês
Wiseman, então, decidiu ir além da mera observação. Pediu a voluntários que adotassem durante cerca de um mês certas rotinas que haviam identificado em pessoas que se consideravam sortudas.
Os participantes foram incentivados a sair das suas rotinas, aumentar as suas interações sociais, manter-se atentos às possibilidades inesperadas, ouvir mais a sua intuição e imaginar finais positivos. Eles também deviam tentar olhar para os eventos desagradáveis de uma nova perspetiva, em busca de uma consequência construtiva.
Essa ideia de transformar a interpretação de uma dificuldade remete para os mecanismos discutidos num artigo sobre como algumas pessoas transformam falhas em oportunidades.
No seu relatório sobre o “Fator Sorte”, Wiseman menciona que após um mês, cerca de 80% dos participantes afirmaram sentir-se mais felizes, mais satisfeitos com a vida e mais sortudos. Um artigo do Guardian também abordou o seu trabalho e trouxe testemunhos de alguns participantes na época.
É de lá que provém o enigmático número de 80%
Mas o que essa estatística realmente significa deve ser interpretado com precisão: os participantes afirmaram sentir-se mais sortudos. A experiência não prova que a probabilidade objetiva de encontrar eventos favoráveis aumentou em 80%, nem que qualquer pessoa que aplique esses princípios obterá os mesmos resultados.
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Ser mais sortudo pode, a princípio, significar expor-se a mais oportunidades

Dentre os quatro princípios de Wiseman, aquele que se refere à multiplicação de oportunidades é, provavelmente, o mais fácil de explicar sem recorrer a forças misteriosas.
Encontrar mais pessoas, mudar de vez em quando os hábitos ou experimentar novas atividades aumenta mecanicamente o número de situações às quais estamos expostos. Isso, sem dúvida, não garante que aparecerá uma boa oportunidade, mas, por outro lado, cria mais possibilidades para que ela surja.
Aqui não se trata de controlar o acaso, mas de modificar as condições em que um evento favorável pode ocorrer.
Comprar mais bilhetes de loteria não altera as probabilidades associadas a cada bilhete. Ampliar a rede de contatos funciona de maneira diferente. Cada nova conversa pode fornecer uma informação, criar um vínculo de confiança, levar a uma recomendação ou gerar um novo encontro. Com o tempo, essas possibilidades podem se somar.
Sob essa luz, ser mais sortudo significa, essencialmente, aumentar a exposição às oportunidades e estar atento para vê-las quando surgem. Essa ideia também se associa a comportamentos frequentemente atribuídos a pessoas que se consideram sortudas.
As expectativas positivas podem influenciar o nosso comportamento
O mesmo raciocínio se aplica ao otimismo. Acreditar que uma conversa tem boas chances de correr bem leva a fazer o primeiro movimento, a falar mais livremente ou a persistir. Por outro lado, estar convicto de que seremos rejeitados pode nos levar a evitar completamente a situação.
Nossas expectativas podem, portanto, afetar nosso comportamento, que, por sua vez, influencia a reação dos outros. Uma dínamo positiva pode, assim, surgir sem a necessidade de invocar uma forma sobrenatural de sorte.
Contudo, isso não significa que o otimismo garante melhores resultados. Como também é espelhado neste artigo sobre as limitações e os efeitos do otimismo, uma atitude positiva não é suficiente por si só para determinar o que ocorre na nossa vida.
A intuição pode ajudar a tornar-se mais sortudo, mas não é infalível

Wiseman atribuiu também uma importância significativa à intuição. Contudo, não há necessidade de considerar que a mesma se origina de algo misterioso. Muitas vezes, uma impressão intuitiva surge de informações e sinais que o nosso cérebro assimilou sem a nossa análise consciente.
Contudo, as pesquisas contemporâneas sobre este tema sugerem que não devemos considerar toda intuição como necessariamente correta. A experiência acumulada, o contexto e a natureza da decisão têm um papel importante.
Para aprofundar essa questão, um artigo aborda os mecanismos que podem explicar por que podemos, às vezes, confiar na nossa intuição.
Sentir-se sortudo e acreditar na sorte não são exatamente a mesma coisa
Finalmente, os trabalhos realizados após os de Darke e Freedman demonstram que a nossa relação com a sorte é mais complexa do que uma simples oposição entre “sortudos” e “azarados”.
Um modelo posterior que distingue quatro dimensões das crenças sobre a sorte separa, por exemplo, a crença geral na existência da sorte, o seu rejeição, o sentimento de ser pessoalmente sortudo e o sentimento de ser pessoalmente azarado.
Essa distinção permite compreender melhor os resultados de Wiseman. A sua experiência não demonstra que se pode aprender a controlar o acaso. Sugere antes que certas hábitos podem alterar a atenção, as expectativas e as reações dos indivíduos diante dos acontecimentos.
Em outras palavras, tornar-se mais sortudo pode, por vezes, consistir menos em alterar o que o acaso nos reserva, mas em multiplicar as oportunidades, percebê-las melhor e saber mais sobre o que fazer quando elas surgem.
A intuição e o recadramento devem ser abordados com cautela

“Confiar na intuição” é, sem dúvida, o princípio de Wiseman que demanda mais cautela. Uma intuição pode estar baseada em experiências reais, mas também pode refletir medos, estereótipos ou excesso de confiança. O mais sensato é considerar essa impressão, questionando quais elementos concretos a provocaram.
Procurar tornar-se mais sortudo nunca deve servir como justificativa para desconsiderar opiniões médicas, informações financeiras confiáveis ou regras de segurança. A intuição pode direcionar uma reflexão, mas não substitui os fatos.
O recadramento de falhas funciona de maneira análoga. Wiseman não sugere que se deve afirmar que um evento negativo se revelou positivo, mas sim evitar que ele determine o futuro. Ele orientava expressamente a imaginar como a situação poderia ter sido pior e, em seguida, buscar uma resposta construtiva.
Pesquisas clássicas sobre raciocínio contrafactual demonstraram que os medalhistas de bronze parecem, por vezes, mais felizes do que os medalhistas de prata. O medalhista de prata pode pensar no ouro perdido, enquanto o de bronze compara-se àquele que não teve medalha alguma.
Dessa forma, recadrar um fracasso pode ajudar a relativizar uma decepção. Contudo, isso não significa negar a dor ou transformar um problema real em uma mera questão de estado de espírito. Estudo sobre o estilo explicativo indica também que a forma como se interpreta uma derrota pode influenciar a perseverança. Encarar uma dificuldade como temporária e específica normalmente proporciona mais possibilidades de ação do que vê-la como permanente e pessoal.
Disponibilizamos vários artigos que também abordam a resiliência e a nossa forma de superar dificuldades.
O número de 80% deve ser interpretado com cautela
O resultado mais conhecido da “Escola da Sorte” é notável: Wiseman relata que 80% dos participantes sentiam-se mais sortudos após um mês. Contudo, as informações disponíveis não permitem avaliar essa experiência conforme um ensaio controlado moderno.
Faltam, em particular, detalhes sobre o número exato de participantes que completaram a experiência, a sua seleção, uma eventual distribuição aleatória ou a presença de um grupo controle real.
Os voluntários também sabiam que os exercícios eram supostos ajudá-los a se tornarem mais sortudos. Portanto, eles poderiam ter prestado mais atenção aos eventos positivos, recordado melhor as suas conquistas ou, simplesmente, desejar responder positivamente às expectativas da experiência.
Por fim, um mês não é suficiente para determinar se as mudanças observadas se mantêm a longo prazo.
Os voluntários não representavam necessariamente toda a população

Os indivíduos que decidem participar de um programa voltado para a sorte podem também ser particularmente motivados a modificar os seus hábitos ou mais receptivos a esse tipo de abordagem.
Os seus resultados não podem, portanto, ser automaticamente generalizados a todos. O percentual de 80% não significa que uma pessoa que hoje aplique os princípios de Wiseman terá 80% de chances de se tornar mais sortuda.
Isso não diminui o interesse da experiência. Aprender a reconhecer melhor as oportunidades, aumentar a iniciativa ou reagir mais facilmente após uma decepção pode ser benéfico. Estes resultados sugerem, sobretudo, que tornar-se mais sortudo pode depender em parte de nossos comportamentos e da nossa percepção dos eventos, sem que isso constitua uma prova científica definitiva.
Uma experiência pessoal pode ajudar a testar esses princípios
É possível experimentar as ideias de Wiseman sem pressupor que se pode influenciar diretamente o acaso. Durante quatro semanas, por exemplo, pode-se descobrir regularmente um novo lugar ou atividade, iniciar algumas conversas incomuns e anotar as oportunidades encontradas.
Pode ser útil também escrever as suas intuições antes de conhecer o resultado. Isso permite verificar, depois, a sua pertinência sem reter apenas aquelas que se mostraram corretas.
Após um revés, é recomendado anotar três itens: o que era impossível controlar, o que ainda pode ser modificado e a próxima ação possível.
O objetivo não é forçar um pensamento positivo, mas impedir que uma má experiência determine tudo o que virá depois.
Tornar-se mais sortudo ou simplesmente multiplicar as possibilidades?

Depois de quatro semanas, não basta perguntar: “Sinto-me mais sortudo?”. É interessante também observar as mudanças concretas.
Você conheceu mais pessoas? Identificou mais oportunidades? Tentou mais coisas? Retomou mais rapidamente os esforços após um fracasso?
Essas evoluções não provam que a sorte lhe tornou mais favorável. Elas sugerem, antes, que buscar tornar-se mais sortudo pode consistir em multiplicar as oportunidades, reconhecê-las melhor quando aparecem e evitar que um revés impeça a sua capacidade de aproveitá-las.
Este artigo é apresentado apenas para fins informativos e reflexivos. Não constitui, de nenhum modo, um parecer médico, psicológico ou profissional. As noções abordadas baseiam-se em pesquisas publicadas, bem como em observações editoriais, e não resultam de uma avaliação clínica. Para a sua situação particular, consulte um profissional qualificado.




