Existe uma solidão que, na maioria das vezes, passa despercebida. Não é visível nos rostos, não se ouve nas vozes, e pouco se percebe nas conversas. Muitas vezes, ela afeta pessoas que parecem rodeadas, estimadas e fáceis de amar. Estas são as que transmitem a ideia de que tudo vai bem, mesmo quando carregam um peso imenso em silêncio. Aprenderam a estar presentes para os outros sem nunca ocupar muito espaço. Com o tempo, essa habilidade de adaptação pode transformar-se num ato de desaparecer nas relações. Entre as pessoas mais solitárias que você encontrará, frequentemente estão aquelas que todos descrevem como agradáveis, fáceis de lidar e pouco exigentes.
Raramente transmitem a ideia de que precisam de algo, mas isso não significa que estejam bem. Muitas aprenderam desde cedo que expressar as suas expectativas, mostrar as suas emoções ou pedir apoio pode resultar em distância, desconforto ou até rejeição.
As pessoas que parecem não exigir nada são, por vezes, aquelas que descobriram cedo que seus desejos poderiam ser vistos como problemáticos. Nos grupos sociais, aqueles que sofrem mais com a solidão não são necessariamente os que ocupam muito espaço ou complicam as coisas, mas sim aqueles dos quais todos dizem o mesmo: « são tão fáceis de lidar ».
Eles deixam que os outros escolham o restaurante. Aceitam mudanças de programa sem protestar. Ou evitam enviar mensagens quando se sentem magoados, com medo de parecerem excessivamente sensíveis ou exigentes. Quando um amigo esquece um evento importante ou os decepcionam, minimizam o que sentem, consertam a situação no dia seguinte e, às vezes, convencem-se de que não foi grave.
O que o entorno interpreta como gentileza, maturidade ou uma grande capacidade de adaptação esconde, por vezes, uma ferida mais profunda

Esse padrão de comportamento normalmente se forma na infância, quando a pessoa entende que é mais seguro não pedir, não incomodar e não mostrar o que lhe falta.
Isso aparece frequentemente nos relatos pessoais que consumimos, sejam testemunhos ou textos autobiográficos, escritos por quem parece, quase, pedir desculpas por precisar falar de si mesmo. Quando finalmente revelam que se sentem sozinhos, essa confissão surpreende seu entorno, mas não a eles mesmos.
Associamos geralmente pessoas calmas, conciliativas e relaxadas a uma boa adaptação social. Elas não geram conflitos, não exigem muita atenção e sabem deixar os outros à vontade. Este comportamento é muitas vezes encorajado, valorizando-se a independência e a flexibilidade, o fato de « não serem complicadas ».
No entanto, em alguns casos, essa aparente facilidade não é apenas uma qualidade. Ela se transforma numa proteção. Por trás da sua capacidade de aceitar tudo, pode haver um medo de ser abandonada se ousarem mostrar suas necessidades, limites ou expectativas. Sua solidão não decorre de um valor ou interesse insuficiente pelos outros, mas do fato de que aprenderam a ser amadas ao ocupar o menos espaço possível.
A criança que aprendeu muito cedo que suas necessidades eram um problema
Quando perguntamos a alguém considerado « fácil de lidar » sobre sua infância, uma imagem frequentemente aparece. Era a criança « boa », que não causava problemas, a que sabia se entreter sozinha e que parecia compreender os sentimentos dos outros antes mesmo que eles se expressassem. Sentia a tensão no ambiente, um silêncio incomum ou uma mudança de humor apenas por alguns detalhes.
Muitos falam disso com orgulho: « Meus pais não precisavam se preocupar comigo ». Porém, por trás dessa afirmação pode haver algo mais profundo. A criança pode ter entendido precocemente que a atenção, o apoio ou a preocupação dos adultos eram recursos escassos. Aprendeu que, ao pedir menos, ser mais autônoma e esconder suas dificuldades, evitava sobrecarregar os que estavam ao seu redor.
Quando uma criança não recebe sempre uma resposta confiável para suas necessidades emocionais, mas ainda assim depende das figuras de apego, ela desenvolve estratégias de adaptação específicas. Aprende a se consolar, a minimizar o que sente e a não esperar demais dos outros.
Essa forma de funcionar pode ser muito eficaz na infância. Ela preserva o vínculo com as pessoas importantes. O problema é que esse padrão pode persistir muito tempo depois que o perigo desaparece. Na vida adulta, algumas pessoas acabam por não saber claramente do que precisam ou sentem quase culpa ao ousar falar sobre suas expectativas.
Quando não pedir se torna um hábito

As marcas dessa adaptação costumam ser visíveis em situações simples do dia a dia.
Se você perguntar a essas pessoas onde gostariam de ir almoçar, elas frequentemente responderão: « Como você quiser, tanto faz ». Se perguntar o que gostariam de ganhar de presente, terão dificuldade em responder. Ou perguntar se algo não vai bem, e elas rapidamente dirão que está tudo bem.
O mais intrigante é que elas não estão necessariamente atuando. Podem realmente ter aprendido a não ouvir suas próprias vontades. Ao colocarem suas necessidades em segundo plano, acabaram por considerá-las secundárias ou até desnecessárias.
Esse comportamento é frequentemente interpretado como gentileza, maturidade ou uma grande capacidade de adaptação. No entanto, pode também ser o resultado de anos de tentativa de evitar ocupar demasiado espaço.
Por que ser agradável não garante boas relações?
Isso torna essa realidade difícil de compreender. Pessoas conciliativas atraem os outros. Facilitam as situações, evitam conflitos e criam um ambiente confortável à sua volta.
Quem não aprecia alguém que é ouvinte, que se adapta e que não complica as coisas?
No trabalho, são muitas vezes vistas como confiáveis. Nas amizades, são consideradas fáceis de conviver. Nos relacionamentos amorosos, podem transmitir uma sensação de calma e estabilidade.
Mas existe uma diferença importante entre ser apreciado e ser verdadeiramente conhecido.
Um estudo recente sobre a influência da personalidade no comportamento revelou que pessoas agradáveis são particularmente generosas com associações, comunidades e circunvizinhos. No entanto, dar mais não significa necessariamente receber o mesmo em troca, e esse desequilíbrio, uma vez estabelecido, é difícil de corrigir.
Alguém pode ser amado por sua falta de exigências, paciência e disponibilidade, mas permanecer invisível em relação ao que realmente sente. As qualidades que facilitam as interações sociais não criam automaticamente um relacionamento íntimo e equilibrado.
Dar muito aos outros não significa que você receberá a mesma atenção em retorno. Quando um relacionamento se estabelece com um desequilíbrio, torna-se difícil mudar as regras sem causar desconforto.
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A solidão de quem ninguém vê realmente

A solidão dessas pessoas não está necessariamente relacionada à falta de contatos sociais. Podem ter amigos, família, um círculo profissional preenchido.
Sua solidão vem de um lugar diferente: do sentimento de que os outros conhecem uma versão delas, mas não a pessoa inteira.
Quando alguém mostra apenas seu lado agradável, compreensivo e sempre disponível, os outros acabam se apegando a essa imagem. Mas no momento em que essa pessoa expressa uma ferida, uma frustração ou uma necessidade, ela pode sentir que está rompendo um papel que desempenha há muito tempo.
Cada vez que escolhe minimizar uma decepção ou esconder uma dor, está protegendo a relação a curto prazo. Contudo, perde também a oportunidade de ser verdadeiramente compreendida.
Por que é tão difícil sair desse padrão?
Pode-se perguntar: se essa forma de viver é tão solitária, por que não começar a pedir mais?
A resposta é que esse comportamento não é apenas um hábito consciente. Trata-se frequentemente de um sistema de proteção profundamente enraizado em nós.
Para alguém que aprendeu desde jovem que suas necessidades podiam causar rejeição, expressar um pedido pode ainda parecer perigoso, mesmo anos depois. Embora o ambiente tenha mudado, uma parte dela continua a operar sob as antigas regras.
Sua mente pode saber que pedir ajuda é possível, mas seu sistema emocional ainda associa vulnerabilidade ao risco de ser abandonado, julgado ou ser visto como um peso.
Quando o autocontrole se transforma em apagamento de si mesmo

Costuma-se perguntar por que, se a situação é tão penosa, a pessoa que se mostra conciliadora não começa simplesmente a pedir mais. A resposta é que essa estratégia se autoalimenta.
Cada tentativa de expressar uma necessidade é vista como um precipício, porque esse sistema de autorregulação foi estabelecido desde a infância, quando era realmente necessário. O sistema nervoso, por sua vez, não foi atualizado.
Vale mencionar ainda um mecanismo secundário: o autocontrole que se volta contra si mesmo, sob a forma de repressão.
Pesquisas sobre os vínculos entre autorregulação e relações sociais costumam considerar a capacidade de gerenciar as próprias impulsões e reações como uma proteção: um bom autocontrole tende a tornar as pessoas mais agradáveis de lidar, reduzindo, assim, o isolamento. O que essa visão omite, porém, é o caso inverso.
Quando a autorregulação se transforma num apagamento crônico de si, quando as mesmas qualidades que lhe permitem ser paciente no trânsito também o tornam paciente em relação à indiferença dos seus familiares, a função protetora transforma-se em isolamento. Você se torna um expert em não esperar nada de ninguém, o que significa que você se destaca na solidão.
A capacidade de controlar suas reações é geralmente vista como uma qualidade.
Ela auxilia na gestão de frustrações, na manutenção de boas relações e na convivência harmoniosa.
No entanto, essa qualidade pode ter um lado negativo.
Quando uma pessoa utiliza constantemente sua paciência para suportar o que a machuca, sua calma para evitar conversas difíceis e sua compreensão para justificar os comportamentos dos outros, o autocontrole deixa de ser uma força protetora.
Ele se transforma em uma maneira de se abandonar.
Essas pessoas tornam-se, às vezes, especialistas na arte de não pedir, de não exigir atenção, de não reivindicar esforços, de não expressar desapontamento. Contudo, aprender a não precisar dos outros muitas vezes significa aprender a permanecer sozinho.
Este artigo é oferecido a título informativo e de reflexão. Não constitui de forma alguma um parecer médico, psicológico ou profissional. As noções abordadas baseiam-se em pesquisas publicadas, bem como em observações editoriais, e não resultam de uma avaliação clínica. Para sua situação particular, consulte um profissional qualificado.




