Por que a natalidade está diminuindo? Dois estudos recentes apontam o uso dos celulares

A descida da natalidade é um fenómeno que tem vindo a suscitá uma série de questionamentos nas últimas duas décadas, com muitos países desenvolvidos a registarem uma tendência contínua e acentuada para a redução do número de filhos por família. As razões para tal são diversas e vão desde questões económicas até transformações culturais. Pesquisadores continuam a explorar por que motivo as famílias estão a ter, em média, menos filhos do que no passado. O acesso facilitado a métodos contraceptivos e o aumento dos anos de escolaridade têm sido frequentemente referidos, assim como as mudanças no mercado de trabalho e o elevado custo de vida. No entanto, não existe um consenso numa única explicação.

O surgimento dos smartphones, a partir de 2007, coincide com o início de uma descida na taxa de fertilidade em diversos países. Recentes estudos sugerem que esta relação temporal pode não ser meramente acidental. Assim, o enigma do declínio da fertilidade poderá estar ligado ao fenómeno dos smartphones.

Especialistas têm aventado a hipótese de que os telemóveis podem ter influenciado na diminuição da natalidade, especialmente após o lançamento do iPhone em 2007. Até agora, porém, não havia provas robustas que estabelecessem um elo directo entre ambos.

Dois novos estudos científicos, um publicado em maio e outro na última segunda-feira, foram dos primeiros a testar sistematicamente a influência dos smartphones na fertilidade.

Estas investigações fazem parte de uma análise mais abrangente que visa compreender a acentuada diminuição das taxas de natalidade em países como os Estados Unidos, onde diversos factores já haviam sido explorados, incluindo alterações nos métodos contraceptivos, taxas de aborto, aumento do nível educativo feminino e tendências culturais actuais.

Contudo, estabelecer uma relação de causalidade entre smartphones e a descida da natalidade apresenta-se como uma tarefa extremamente complicada. Diversos eventos significativos ocorreram simultaneamente, como a crise financeira global, dificultando a atribuição de um papel único às tecnologias digitais.

Metodologia desafiadora

Imagens Pexels e Freepik

A metodologia padrão utilização na investigação científica para estabelecer uma relação de causa-efeito é a aleatorização, que implica comparar dois grupos: um que recebe um “tratamento” (como o acesso a um smartphone) e outro que não. A partir daí, observa-se as variações de resultados entre os grupos.

Entretanto, esta abordagem é praticamente invulgar para estudar as causas do declínio da fertilidade, devido a motivos éticos e logísticos.

Perante esta dificuldade, os investigadores procuram situações da vida real que introduzam algum grau de aleatoriedade nos dados.

Caitlin Myers, economista no Middlebury College, e o seu estudante Ezekiel Hooper, exploraram o lançamento gradual do iPhone nos Estados Unidos, onde o primeiro modelo foi disponibilizado em junho de 2007, restringindo-se inicialmente à rede AT&T até 2011.

Os investigadores compararam as taxas de fertilidade entre condados donde a cobertura AT&T era considerável e aqueles onde era escassa ou inexistente.

De acordo com o estudo, publicado pelo National Bureau of Economic Research, a chegada do iPhone poderá explicar quase metade da redução da taxa de natalidade entre 2007 e 2011 nos EUA, com efeitos mais notórios entre jovens adultos com idades compreendidas entre os 15 e 24 anos.

Para justificar estes resultados, foram propostas várias explicações. Caitlin Myers aponta que os jovens poderiam estar a reduzir as suas interacções presenciais, favorecendo os contactos através do smartphone, o que poderia diminuir as oportunidades de encontros e de relações sexuais.

Outras teorias sugerem um acesso facilitado à pornografia, ou uma maior divulgação sobre métodos contraceptivos e prevenção de gravidezes indesejadas.

Interpretação cautelosa dos resultados

Outros especialistas que não participaram no estudo consideram que os achados são interessantes e têm por base dados sólidos. Phillip B. Levine, economista no Wellesley College, elogia a robustez da base de dados utilizada, considerando-a particularmente informativa para a análise de mudanças sociais de grande envergadura.

No entanto, ele adverte contra uma interpretação simplificada das conclusões. As variações na cobertura da AT&T podem reflectir características socioeconómicas específicas dos condados, o que pode influenciar os resultados.

Desta forma, mesmo que a análise busque corrigir tais vieses, é crucial evitar conclusões precipitadas sobre uma relação causal directa entre o iPhone e a diminuição da natalidade.

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Um fenómeno global

A diminuição da natalidade, anteriormente considerada uma característica das nações ricas, está agora a ser observada em muitas regiões do mundo. Dada esta mudança global, os investigadores tentam identificar factores comuns que expliquem este retrocesso.

Os autores de uma segunda investigação expandiram a sua análise para incluir o papel potencial dos smartphones neste fenómeno.

«Países com sistemas de saúde, protecções sociais, legislações sobre aborto, tradições religiosas, ciclos económicos e dinâmicas demográficas diversificadas têm todos experimentado padrões semelhantes no mesmo período», afirmam Hernan Moscoso Boedo, professor de economia na Universidade de Cincinnati, e Nathan Hudson, doutorando.

Conforme “independentemente da causa, trata-se de um fenómeno mundial, que surgiu em termos semelhantes, na mesma época, em diversas nações”.

Para testar essa hipótese, os investigadores analisaram informações do Banco Mundial sobre a disseminação de smartphones e as taxas de fertilidade entre adolescentes em 128 países.

Observou-se que em países como o Irão, Costa Rica, Guatemala, Chile, México e Turquia, a redução da fertilidade adolescente acentuou-se a partir do momento em que os smartphones se tornaram amplamente disponíveis.

Os autores também pesquisaram o caso dos Estados Unidos, utilizando dados sobre as redes de internet de alta velocidade e redes móveis 4G, comparando áreas com bom acesso e aquelas com acesso limitado.

Os resultados evidenciam uma correlação notável: a fertilidade entre adolescentes diminuiu de forma mais acentuada nos condados com melhor acesso à internet de alta velocidade.

Cautela na interpretação das conclusões

Essas investigações, no entanto, foram recebidas com certo ceticismo por alguns especialistas. Theodore Joyce, economista no Baruch College, lembra que a diminuição das nascimentos entre adolescentes já estava em andamento desde os anos 1990, muito antes do alcance dos smartphones e das tecnologias móveis modernas.

Ele destaca ainda que o estudo de Caitlin Myers abrange um período relativamente curto, anterior à aceleração da disseminação dos smartphones.

Em sua opinião, embora a hipótese mereça ser analisada, permanece puramente especulativa e não estabelece um vínculo de causalidade firme.

Este artigo é disponibilizado para reflexão e informação. Não deve ser considerado como aconselhamento médico, psicológico ou profissional. As ideias apresentadas têm como base investigações publicadas e observações editoriais e não um diagnóstico clínico. Para situações particulares, consulte um profissional qualificado.

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