Sem amigos próximos aos 60 anos: e se não fosse um fracasso social, mas uma forma de esgotamento relacional

Na vida, algumas jornadas são traçadas de forma inconsciente. Muitas vezes, não conseguimos identificar como se estabelecem até que se tornem evidentes ao longo do tempo. Há pessoas que, aos 60 anos, se encontram sem amigos próximos. Isso não significa que sejam socialmente incapazes; pelo contrário, pode ser que, durante décadas, tenham sido um pilar para os que as rodeiam.

É provável que conheçam alguém nessa situação. Frequentemente é uma mulher, mas não exclusivamente. Aquela que mantém todos de pé quando as coisas desmoronam. A que recebe telefonemas à noite após um dia difícil, quando se precisa desabafar, ser ouvido, ter segurança. Aquela que, durante trinta ou quarenta anos, tem sido um suporte emocional, discreto mas constante, para a família, amigos e colegas.

Contudo, ao aproximar-se da sexta década de vida, algo surpreendente pode emergir. Ela não possui muitos amigos próximos. Não porque tenha afastado os outros, mas porque, à medida que foi dando e ouvindo, sua capacidade para receber a amizade de forma recíproca foi-se apagando ou relegando ao esquecimento.

O que ninguém menciona sobre quem não tem amigos próximos aos 60 anos

Sem amigos próximos aos 60 anos
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A teoria do apego oferece uma perspetiva valiosa sobre esta variante do quadro. Baseando-se nos trabalhos de John Bowlby, os investigadores descreveram comportamentos como os de “cuidado compulsivo” e “autonomia compulsiva”. Estes conceitos não são meras etiquetas: refletem modos como algumas pessoas aprendem a gerir a proximidade.

À primeira vista, parecem contraditórios, mas frequentemente podem surgir de um mesmo compromisso emocional: manter-se próximo dos outros através da ajuda, evitando a dependência.

A pessoa que cuida compulsivamente dos outros dá incessantemente. Já a que é autónoma nunca pede nada. Juntando estes traços, obtemos alguém que passou anos a oferecer apoio sem quase nada receber em troca. Isso não ocorre porque essa pessoa não precise de apoio, mas porque receber amizade se tornou tão estranho ao longo do tempo que não o considera uma possibilidade.

Pesquisas sobre cuidados de longa duração oferecem um paralelo pertinente. Numa estudo longitudinal realizado em 2023 com mais de 1.400 cuidadores, constatou-se que uma relação de má qualidade estava associada a dificuldades e encargos crescentes na ajuda, enquanto uma relação de boa qualidade estava associada a uma maior satisfação nesta função. Os autores também destacam que relações negativas frequentemente envolvem falta de apoio e reconhecimento, o que pode reduzir os recursos psicológicos dos cuidadores para lidar com o estresse.

Em suma: dar atenção em relações onde o apoio e o reconhecimento são raramente recíprocos pode progressivamente alterar as expectativas de uma pessoa em relação à intimidade.

Por que a amizade recíproca pode parecer estranha a quem não tem amigos próximos aos 60 anos

A amizade na idade adulta, na sua forma mais plena, é recíproca. Vocês se ligam, apoiam-se mutuamente. É uma dinâmica que adquire uma importância especial à medida que envelhecemos. Um estudo realizado em 2025 no Japão revelou que ter menos de três amigos próximos disponíveis está associado à solidão, tanto em homens como em mulheres.

Especificamente para as mulheres, ter menos de três amigas em quem se sentem confortáveis para conversar sobre assuntos íntimos também estava ligado à solidão. Em outras palavras, a quantidade e a qualidade das amizades próximas na terceira idade não são meras variáveis subjetivas; elas evoluem com o tempo.

A pessoa que dá cuidados psíquicos de forma crónica está familiarizada com a primeira parte deste intercâmbio.

Ela tem sido sempre a que dá. O que não percebe é a segunda parte: como ser a pessoa que é apoiada.

Não se trata de uma questão teórica. Quando tenta oferecer algo a uma amiga, após décadas de hábitos em sentido oposto, diversas coisas ocorrem simultaneamente.

Ela pede desculpas antes mesmo de começar. Minimiza a dificuldade. E apresenta a situação como uma história, em vez de como uma necessidade. Durante a conversa, acaba por perguntar à amiga como ela está, redirecionando a atenção para esta. Termina a conversa com um leve sentimento de culpa por ter monopolizado a fala e promete não repetir o erro.

A amiga, por sua vez, estaria disposta a ajudar.

Ela teria, sem dúvida, escutado. Infelizmente, nunca teve a oportunidade de participar na conversa. Pois a pessoa que ajudou estava já ausente antes que o diálogo pudesse realmente começar.

Após algumas interações deste tipo, as amizades recíprocas vão-se desvanecendo. Não porque uma parte ou outra tenha agido mal, mas porque a reciprocidade exige que ambas as partes desempenhem ambos os papéis, e uma delas habituou-se a evitar o de receber.

Pesquisas sobre estilos de apego, especialmente os de Mary Ainsworth e os seus modelos, indicam que os indivíduos podem interiorizar uma dificuldade em receber apoio, mesmo quando ele está disponíveis.

A parte mais desconfortável da narrativa das pessoas sem amigos próximos aos 60 anos

Sem amigos próximos aos 60 anos

Quero ser honesta, pois a versão simplista deste artigo absolve completamente a situação. Pobre da pessoa, que deu tanto e o mundo levou tudo.

Contudo, isso não explica tudo.

A verdade mais honesta é muitas vezes mais difícil de perceber. O papel de cuidadora pode tornar-se uma identidade por si só. Não porque a pessoa tenha conscientemente escolhido a solidão, nem porque o círculo próximo tenha tirado proveito dela, mas porque sentir-se útil pode ser mais acolhedor do que simplesmente ser conhecida. Isso estrutura a vida. Proporciona um sentimento de utilidade. Permite estar próximo dos outros, evitando a vulnerabilidade de dizer: “Eu também preciso de algo”.

Durante décadas, essa dinâmica pode ter substituído a amizade, a ponto de mascarar a sua verdadeira natureza. Somente quando esta se esvazia, após os filhos crescerem, os pais partirem, a carreira terminar e aqueles que precisavam dela encontrarem outras fontes de apoio, a ausência de uma verdadeira amizade recíproca se torna evidente.

A frase que ela deve escrever sozinha, numa sala silenciosa, pode ser assim: eu fui tão boa em fazer com que precisassem de mim que nunca aprendi a ter necessidades.

Construi a minha vida em torno do dar, pois isso era a forma de amor que podia controlar. Receber significava expor-me a uma vulnerabilidade que não experimentei desde a infância, quando aprendi a não pedir nada. Essa frase é a chave. Sem ela, nada se pode realizar.

O que podemos realmente fazer?

Não se trata de fazer novos amigos. Ela já tem amizades. A tarefa é muito mais modesta, mas ao mesmo tempo mais difícil.

Ela aprende, aos sessenta anos, a contribuir nas relações que já mantém.

Isto significa responder à pergunta “Como estás?” com uma frase sincera, ao invés de uma resposta automática ou evasiva. Significa telefonar a uma amiga de tempos a tempos, não apenas para saber como ela está, mas porque algo a incomoda. Ou ainda expressar em voz alta: “Estou a passar por um período difícil”, sem se desculpar pela incomodidade que isso possa causar.

Pode parecer de pouca importância. Contudo, não é. Para alguém que passou cinquenta anos a canalizar todas as suas emoções numa única direção, inverter esse fluxo, mesmo que brevemente, é profundamente desestabilizador. Isso provoca um sentimento de culpa. É como uma intrusão. É tornar-se no tipo de pessoa que lhe ensinaram a desprezar: a dependente, o peso, a que não consegue cuidar de si mesma.

Ela não se torna essa pessoa. Finalmente, ela torna-se, essencialmente, uma pessoa. Uma pessoa que dá e recebe. Uma pessoa que os amigos aprenderão a conhecer, e não apenas a receber da sua parte.

O que eu diria a quem se reconhecesse nesta mulher sem amigos próximos aos 60 anos

Se você leu a introdução e se sentiu sem palavras, quero deixar uma mensagem.

Isso não é um veredicto, é um ponto de partida. A capacidade para amizade recíproca não desapareceu. Foi defendida, por razões muito antigas, através de meios que te protegiam quando não havia outra opção.

Essa proteção já não é necessária. A infância que a justifica já passou. O papel que a recompensava está a desvanecer. Finalmente, há espaço para algo mais.

Não estás em desconexão com os outros. Estavas apenas muito ocupada socialmente. Esse espaço liberta-se aos poucos, e agora tens a oportunidade, com o tempo que te resta, de descobrir o que é estar numa amizade que não te obriga a mantê-la.

Se estás sem amigos próximos aos 60 anos ou mais, tenta isto: começa modestamente. Começa desajeitadamente. Por exemplo, começa com uma simples frase que venha do coração para alguém em quem confies.

O músculo existe. Ele apenas esperava há muito tempo para ser utilizado.

Este artigo é meramente informativo e reflexivo. Não constitui, de forma alguma, um parecer médico, psicológico ou profissional. As ideias apresentadas estão baseadas em pesquisas publicadas, assim como observações editoriais, e não resultam de uma avaliação clínica. Para situações específicas, consulte um profissional qualificado.



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