10 coisas que os idosos guardam… e que os filhos vão jogar diretamente fora

Em cada geração, a forma de ver o mundo apresenta nuances que se tornam visíveis nos objetos do dia-a-dia. O que é considerado precioso por uns, pode parecer absolutamente dispensável para outros. Recordo-me de colaborar com a minha mãe a organizar o seu escritório e, invariavelmente, acabava por convencê-la de que não era necessário guardar todas as suas faturas e notas de reuniões dos últimos vinte anos. Por outro lado, ela não podia acreditar que eu não tivesse coleções de cartões-postais ou fotos de família cuidadosamente arrumadas.

Este contraste entre os nossos hábitos sublinha a distinta atribuição de valor que cada geração confere a memórias, segurança e a objetos materiais.

Recentemente, ao ajudar amigos a limpar as coisas dos seus pais, deparei-me com um fenómeno comum. Os pais de hoje em dia apegar-se a certos objetos de forma quase emocional, enquanto os filhos rapidamente os veem como coisas a serem doadas ou descarregadas.

Não se trata de estabelecer se um é mais sentimental que o outro; antes, isso reflete relações divergentes com os objetos, moldadas pelas épocas e ambientes em que fomos criados.

1. Cabos, carregadores e adaptadores para tecnologias obsoletas

Imagens Freepik e Pixbay

Na maioria das casas de pais da geração mais velha, existe uma gaveta repleta de cabos misteriosos: cabos de impressora antigas, carregadores de telemóveis retro ou adaptadores para aparelhos que há muito deixaram de ser usados. Um verdadeiro cemitério tecnológico.

“Nunca se sabe quando isso pode ser útil”, afirmam, como se o antigo Nokia fosse voltar à cena (embora, às vezes, eu ache que deveria). Lembram-se da época em que encontrar o cabo certo exigia um desvio à loja e longas buscas.

Eliminar um cabo equivale quase a desafiar a sorte.

Os filhos poderão utilizar apenas dois cabos dessa coleção. O resto? Lixo eletrônico, que pode ser reciclado ou simplesmente descartado.

2. Coleções de sacos plásticos e atilhos

Abra a gaveta da cozinha de qualquer pai da geração mais velha e encontrará um verdadeiro tesouro: sacos… de sacos. Não são apenas alguns sacos reutilizáveis, mas sim centenas de sacos plásticos para compras, pão, frutas e legumes, todos cuidadosamente dobrados ou empilhados num grande saco.

Ao lado, frequentemente encontra uma caixa cheia de atilhos que poderia abastecer uma pequena padaria.

Esta acumulação remonta a uma época em que cada objeto tinha valor e o desperdício era mal visto. “Nunca se sabe quando vamos precisar de um bom saco”, dizem, sem perceber que têm sacos suficientes para os próximos dez anos.

As gerações mais jovens, conscientes do ambiente e do minimalismo, veem isso como um armazenamento desnecessário. Esses sacos acabam diretamente na reciclagem, provavelmente dentro de um dos mesmos sacos acumulados ao longo de décadas.

3. Anuários telefónicos e páginas amarelas e brancas

No verão passado, ao arrumar a garagem da minha tia, deparei-me com uma pilha de anuários telefónicos que cobriam os últimos quinze anos.

Não eram apenas um ou dois para situações de emergência, mas uma verdadeira coleção completa. Quando sugeri reciclar, a expressão dela fez parecer que eu estivesse a propor desligar todas as linhas telefónicas do bairro.

Para os pais de uma geração anterior, esses anuários volumosos simbolizavam a conexão social e a independência. Antes dos smartphones, perder o seu catálogo era como cortar-se do mundo. Lembram-se de um tempo em que encontrar um número exigia tempo e paciência.

Folhear esses anuários parece tão arcaico quanto usar um relógio de sol para saber as horas.

4. Manuais de utilizador de todos os eletrodomésticos nunca comprados

Recorda-se da época em que precisava de consultar o manual para ajustar o forno ou o vídeo? Os nossos pais têm a clara memória disso. Eles guardam pastas, gavetas e caixas cheias de instruções de misturadores dos anos 80, televisores que foram substituídos há dez anos e máquinas de waffles usadas apenas duas vezes.

O meu pai conservava manuais de aparelhos que já não tínhamos, todos organizados em ordem alfabética numa prateleira. Quando lhe perguntava por que motivo, olhava para mim como se eu estivesse a sugerir deitar dinheiro pela janela.

“E se precisarmos de consultar um manual?” Para uma geração que sempre teve de confiar nesses documentos em papel, a ideia de encontrar qualquer manual online em segundos é inconcebível.

As gerações mais jovens, por seu lado, deitam esses documentos fora sem sequer os abrir. Tudo está acessível online, e é bem possível que haja um vídeo tutorial muito mais claro e rápido.

5. Cassetes VHS e cassetes de áudio sem leitores

Caixas de cassetes VHS empilham-se em arrecadações e caves, mesmo quando o gravador já desapareceu há muito. Cassetes de áudio com compilações ou gravações familiares cobrem-se de poeira. É irónico?

Muitos pais de gerações anteriores já não têm equipamentos capazes de ler esses formatos.

Estes objetos representam memórias congeladas no tempo, diversões de uma época em que possuir um suporte físico tinha significado. Deitar fora o filme de Natal de 1989 ou a gravação da final da Copa do Mundo de 1998 parece um sacrilegio, mesmo que ninguém o tenha visto durante anos.

As gerações mais jovens consomem tudo em streaming e não compreendem o apego a suportes físicos, especialmente a formatos que nunca usaram.

Essas caixas de cassetes frequentemente terminam diretamente no lixo.

6. Documentos financeiros e recibos vencidos

Declarações de impostos da era Mitterrand. Faturas de eletricidade de casas vendidas nos anos 90. Recibos de eletrodomésticos cuja garantia já expirou. Os arquivos dos pais de gerações anteriores são verdadeiras cápsulas do tempo das suas preocupações financeiras.

Foi-lhes ensinado a tudo guardar durante vários anos e, curiosamente, nunca se preocuparam em descartar. “E se a administração fiscal nos controlar?”, dizem eles, como se o fisco estivesse ainda preocupado com uma fatura de 1981.

As gerações mais jovens sabem exatamente o que é realmente importante guardar (poucas coisas) e consideram que os documentos importantes estão armazenados na nuvem. Os tubos de recibos amarelados? Direto para o lixo.

7. Sabonetes decorativos e produtos de higiene do hotel

Nos hotéis franceses preferidos pelos pais de gerações mais velhas estão repletos de sabonetes decorados, mas que ninguém se atreve a usar.

Em forma de flores, conchas ou decorados para o Natal, estes objetos acumulam poeira ao longo dos anos, pois são “bonitos demais para serem utilizados”.

Para isso, por vezes, acrescentam uma impressionante coleção de champôs, loções e toucas de banho trazidas de cada viagem desde os anos 80.

Naquela época, esses produtos simbolizavam luxo. As viagens eram raras e as experiências hoteleiras excepcionais. Levar esses itens era uma forma de prolongar as férias e trazer um pedaço daquela vida de sonho para casa.

Os jovens adultos veem, no entanto, produtos vencidos e inúteis. Eles compram o que precisam, quando precisam. E os sabonetes e frascos antigos? Direto para o lixo.

8. Joias de fantasia e relógios quebrados

As caixas de joias e gavetas das cómodas estão repletas de tesouros que, na verdade, não o são: relógios quebrados que “precisam apenas de uma pilha”, colares emaranhados que “poderiam ser reparados”, e brincos antigos comprados nos anos 70.

Cada joia tem uma história, mesmo que essa história se resuma a: “Usei-a uma vez em 75.”

Os pais de gerações mais velhas veem nisso potencial e recordações. Esse relógio foi um presente de aniversário, aqueles brincos usados num casamento. Deitar isso fora é como se livrar de pedaços da sua história.

Os filhos, por sua vez, veem desordem e, eventualmente, alguns objetos interessantes. Sem apego, são apenas pedaços de metal ou pérolas falsas que estão prontos para ser eliminados.

9. Cupons vencidos e velhas cartões de fidelidade

“E se eles aceitarem mesmo assim?” Esta questão provavelmente salvou milhares de cupons vencidos do lixo nos lares portugueses. Os carteiras e gavetas transbordam de cupons de lojas que fecharam e de cartões de fidelidade de estabelecimentos que se tornaram digitais há anos.

A mãe de uma amiga tinha um sistema de classificação que faria qualquer administrador ficar orgulhoso: ordenados por loja, por data de validade, com uma seção especial para cupons “vencidos mas ainda utilizáveis”.

Um trabalho colossal, mesmo que as economias esperadas já tenham desaparecido há bastante tempo.

As gerações mais jovens mal conseguem entender esses cupons em papel. Elas utilizam aplicações, extensões de navegador ou códigos digitais.

Essas caixas de sapatos cheias de cupons? Direção à reciclagem.

Reflexões finais

Este fosso não se limita apenas aos bens materiais. Trata-se de uma oposição entre segurança e simplicidade, entre o físico e o digital, entre a escassez e a abundância.

Os pais de gerações anteriores cresceram numa época em que os objetos eram mais difíceis de obter e substituir. Os seus filhos cresceram num mundo onde tudo está acessível instantaneamente online.

Não há nada de errado em qualquer uma dessas abordagens, mas elas são fundamentalmente diferentes. Assim, enquanto conservo as cartas manuscritas da minha avó numa caixa que nunca deitarei fora, também compreendo porque a minha mãe não consegue entender porque não imprimo os meus e-mails importantes.

Tentamos todos preservar o que realmente importa, mesmo que discordemos sobre o que é realmente significativo.



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