Praça de Toiros “Palha Blanco”
Tradicional Domingo de Colete Encarnado – 8 de Julho de 2018
Corrida comemorativa dos 170 Anos da Ganadaria Palha
Cavaleiros: Luís Rouxinol e Francisco Palha
Grupo de Forcados Amadores de Vila Franca de Xira
Matadores: Pepe Moral e Nuno Casquinha
7 Toiros da Ganadaria Palha
Banda de Música: Ateneu Artistico Vilafranquense
Lotação: meia casa forte
Vila Franca pelo seu Colete Encarnado é ainda mais Vila Franca! Às gentes da terra não cabe o orgulho no peito, assistindo aos milhares de visitantes que até nós acorrem, para mais uma vez viverem a “melhor Festa do Mundo”, celebrando connosco os nossos amores maiores: o Toiro, o Cavalo, o Campino, o Campo e, consequentemente, a Tauromaquia! E, pasme-se, até os simpáticos militantes do Bloco de Esquerda se lembram dos seus supostos ideais pluralistas e democráticos e decidem manter o seu tradicional espaço de venda (note-se bem, venda) de comes e bebes, isso sim com a justificação de que em Vila Franca, são pró-taurinos, o que parece casar mal com a filiação num partido que a quer proibir a nível nacional. Mas enfim, festa é festa e os aficcionados deram, mais uma vez, uma verdadeira lição de tolerância, civismo e inclusão. Olé Vila Franca!
Como habitualmente, um dos pontos altos de cada Colete é a tradicional Corrida de Domingo, sempre engalanada e colorida com a presença massiva dos grandes homenageados, essa Campinagem sofrida e anónima, a quem tanto devemos. E é na “Palha Blanco” que, outra vez, Vila Franca e os Vilafranquenses, raiam ao seu mais alto nível, fazendo gala de uma exigência que nada mais é que o reflexo do respeito e admiração que professamos, em primeiro lugar, ao Toiro, em toda a sua potência e imponência e, em segundo, a todos aqueles que o enfrentam, com verdade e vontade.
Toiro e Verdade, tão só aquilo que exigimos, mas que cada vez mais parece ser, precisamente, o mais difícil de vermos. Nesse sentido, a “Palha Blanco”, quando conduzida por aqueles que também fazem do respeito ao público e à idiossincracia do velhinho redondel a sua senha de identidade, continua a ser um dos poucos oásis de seriedade onde o aficccionado português pode encontrar a sua merecida “sombra”. Este Domingo de Colete Encarnado não foi excepção e ante um curro, no geral, bem apresentado e de comportamento sempre muito sério e emocionante, triunfaram os intervenientes que fizeram da entrega, do “pundonor” e do coração as suas principais armas, sem esquecer as coisas tecnicamente bem feitas. Falamos por isso, no fundo, de Valor e Pureza, algo que a Praça Vilafranquense valora como poucas.
Assim sendo, Francisco Palha, Nuno Casquinha e os Amadores de Vila Franca foram os grandes triunfadores deste festejo, a par do Ganadero, que nos enviou uma verdadeira Corrida de Toiros!
No primeiro da função, um “toraco” grandalhão mas de feias “hechuras”, embora de séria presença, lidado a duo pelos cavaleiros actuantes, Francisco Palha demonstrou desde logo ao que vinha “entrando pelo toiro dentro”, em dois curtos, de frente e por direito, de alto a baixo e ao estribo, que de imediato deixaram as bancadas ao rubro! Estava servido o grande “aperitivo” para o que se seguiria! Em contrapartida, Luís Rouxinol andou apagadíssimo, limitando-se a cravar a ferragem na esteira dos magníficos momentos do alternante, numa postura que não lhe é habitual.
Saltou para a pega o consagrado Rui Godinho, ante um exemplar que se antevia forte e com dificuldades, as quais veio a confirmar. Após desfazer uma primeira vez, face às características reservadas do oponente, citou novamente com o seu habitual garbo e tranquilidade, carregou e toureou bem a investida, mas o toiro reuniu de forma violentíssima com um derrote fortíssimo, de baixo, para cima, que apanhou o forcado na zona toráxica, tendo recolhido à enfermaria e, posteriormente, ao hospital, no qual à hora de produção desta crónica ainda se encontra em observação. As melhoras Forcadão! Para a dobra, valente e decidido, saltou Francisco Faria, que só à terceira consumou, após uma primeira viagem verdadeiramente estoica, onde pareceu faltar uma maior presença por parte de alguns ajudas e uma segunda tentativa em que o toiro “despachou” de imediato com dois derrotes impressionantes. Uma pega das duras, que, mais do que pela técnica e “limpeza” fica na retina e na memória pela coragem e decisão dos nove elementos (contando com o lesionado Godinho) que enfrentaram a “locomotiva”!
Mantendo-nos ainda nas actuações a cavalo (embora não respeitando a ordem da corrida,), a primeira a solo de Luís Rouxinol, foi agradável, sem ser explosiva, num registo digno e correcto, que também é apanágio do cavaleiro de Pegões, sobretudo em Praças e em Corridas em que sabe que o público é tocado por outros argumentos que não os da alegria e da expressividade “per si”, postura que muito lhe agradecemos.
Para a pega deste exemplar estava reservado um outro momento alto da tarde, com a despedida de Bruno Tavares, extraordinário primeiro ajuda do Grupo de Vila Franca que, nem de propósito, envergou pela última vez a gloriosa jaqueta de forma “oficial” numa corrida que decorreu sempre sob o signo da entrega, da honra e da vontade sem limites, características que tão bem definem a sua postura e uma grande carreira, enorme motivo de orgulho para si e para os seus colegas, pertencentes a uma “geração de ouro” do agrupamento Vilafranquense, os quais, muitos deles já nas bancadas, assistiram à sua derradeira volta à arena de lágrimas nos olhos. Assim é o espírito do Forcado Amador… A pega, foi como o Forcado: sóbria, decidida e sem espaventos, a um toiro que entrou forte, mas frente ao qual recuou e consentiu bem, sendo superiormente ajudado pelo restante Grupo. Obrigado por tudo Tavares!
Na última das lides a cavalo, Francisco Palha alcançou um triunfo histórico e, pelo menos para o que escreve, entrou definitivamente no campo dos “consentidos”. Assim entenda que o caminho é este, da vontade e da garra indómitas, mas sustentadas no toureio puro e sem artifícios. Esse toureio que nos faz perdoar um, dois ou dez toques, ou impressionantes caídas da montada desde que, no “diálogo” que connosco estabelece, nos explique depois que sim, por ali é possível, apesar de não o vermos, porque só alguém com a sua alma, coração e técnica o consegue descortinar: que ferro, que momento inacreditável! E que emoção a de termos a certeza que ali, naquele momento, talvez tenhamos finalmente descoberto um “eleito” para o futuro, que tanta falta nos fazia! Mestre Baptista, passou por ali e gostou do que viu… Antes já tinham existido três curtos de antologia, dando as distâncias devidas (que foram variando bastante, face ao reservado e encastado comportamento do toiro), mas entrando sempre “com tudo” e cravando com absoluta perfeição e cingimento! Estou desconfiado que pouca gente na Praça se sentou durante toda a lide e no final as mãos ficaram vermelhas de tanto aplaudir. Francisco Palha, que sempre achei irregular, capaz do melhor e do pior, relembrou-me que milagres como o de Domingo não podem ser a regra, ou não fosse a Tauromaquia uma Arte e não uma Ciência e assim demonstrou-me, em definitivo, que por ele valerá sempre a pena esperar… Assim são os Génios do Toureio!
Para a pega deste toiro foi escolhido David Canário, também ele, à vez, todo Alma, mas também técnica e “toreria”. Desfeiteado de feia maneira ao primeiro intento, ficando extremamente combalido, foi ao fundo do coração e arranjou as forças para concretizar à segunda, frente a um oponente que pediu sempre muito mando e “temple” no recuar e a firme decisão de todo o Grupo no momento em que “encontrava presa”. Uma grande pega!
No que diz respeito ao toureio a pé, sobre as actuações de Pepe Moral lamento não ter grande coisa positiva a dizer, sendo que era uma das minhas grandes ilusões para este festejo, desde o momento em que os cartéis foram apresentados. Matador de excelente corte, puro e honesto, que em Espanha se relançou nos últimos dois anos frente a ferros das Ganadarias mais duras, sem nunca perder um toureio e umas senhas de identidade muito difíceis de manter ante este tipo de “ferros”, pareceu-me a escolha perfeita para esta corrida. Infelizmente veio a Vila Franca com os “tiques” de figura que não é, os quais, pelo que consta, começaram logo no momento do sorteio dos toiros e continuaram na forma desconfiada e aliviada com que andou toda a tarde, frente a dois oponentes que, à semelhança de toda a corrida, levavam essa casta dentro que também responde bem, quando as coisas lhes são feitas com acerto e, sobretudo, sem duvidar, coisa de que Moral foi sempre incapaz. Pareceu ficar contente o seu apoderado, que não parou de lhe gritar “Bien Pepe!” durante toda a duração das faenas, para compor um quadro que, já de si, não foi dos mais edificantes.
Nuno Casquinha foi todo o oposto do alternante espanhol e deu uma verdadeira lição de entrega e querer, alcançando até, em alguns momentos, altíssimas quotas artísticas, particularmente em duas séries de intermináveis naturais ao seu primeiro oponente, com mais de meia muleta a arrastar pela arena, que deixaram a “Palha Banco” em verdadeira catarse! Foi essa primeira lide a sua melhor, plena de repouso e “toreria”, no entendimento perfeito de um adversário que não era fácil, por muito encastado, mas que acabou dominado por um toureiro em plenitude, que soube à base de muito valor e entrega, mas também de inteligência e sangue-frio, encontrar-lhe as teclas correctas, convencendo-o até lograr aquela extraordinária explosão ao natural! Contra a casta do “Palha”, a casta de um Toureiro! No seu segundo, voltou à sua versão mais acelerada, mas ainda assim construiu uma faena muito agradável, emotiva e sincera, em que, como de costume, deu tudo de si e que viria a constituir uma excelente rúbrica a uma grande tarde de toiros no redondel Vilafranquense!
E que bom foi, regressar a um desses raros “Oásis” onde as coisas são feitas a pensar naqueles que com toda a ilusão e esperança gastam o seu dinheiro em busca desse milagre que é o Toureio, sabendo que, em primeiro lugar, este jamais pode existir sem TOIRO e, em segundo, sem Artistas que o estejam dispostos a combater sem truques e subterfúgios, em nome da Pureza e da Defesa da sua Arte… Por tudo isto, à Empresa, que montou o cartel, consciente dos gostos da sua aficción e com o máximo respeito por ela, ao Ganadero, que escolheu e criou este curro, pleno de Emoção e Seriedade, a Francisco Palha, Nuno Casquinha e ao Grupo de Vila Franca, que expuseram as suas vidas, em nome da verdadeira Tauromaquia e a troco do agradecimento e emoção desse público tão único e especial que é o de Vila Franca: muito, muito obrigado!
E assim rezam e continuarão a rezar dois dos nossos motes mais fortes, sentidos e com sentido: “Vila Franca Arte, Vila Franca, Emoção!” e “Vila Franca, nem Melhor nem Pior, Diferente!”…











